A terra pertence ao homem, ou o homem pertence à terra?

Por David Ranieri


A terra prometida fez com que milhões caminhassem sem rumo pelo deserto, até que lhes fosse dito terem chegado ao seu destino, onde poderiam enfim criar raízes e ser nação.
Os gregos antigos, base da civilização ocidental, estimavam a terra de um homem pelo poder deste em defende-la e para tanto, os seus limites não poderiam ser maiores que a sua força e alcance de sua lança. Sendo a limitação de um homem a sua posse. A história humana tem forte relação com a posse da terra. Na expansão para o oeste nos Estados Unidos da América, a posse da terra dependeu da capacidade dos colonos de conquista-la, já que, como invasores adentraram território dominado por tribos indígenas dizimando-as. E assim, o sangue derramado adubou a terra dos conquistadores nas Américas, não tendo sido diferente em nosso Brasil.
A religião judaico-cristã simboliza esta dependência do homem com a terra, em gênesis, ao atribuir a sua origem ao barro moldado por Deus.
O direito à terra então é sagrado, tendo significado na cultura de todos os povos, e sua posse garantida pelo Estado, este também um detentor de terras, sendo assim reconhecido como país.
O certo é que existe esta dependência, e a sobrevivência da espécie exige os frutos da terra! Portanto, a procura dos homens por terra não poderia ser criminalizada, ou tampouco refutada como coisa menor já que encerraria a própria existência.
Ocorre que nem todos tem acesso à terra. E pior, num país de dimensões continentais como o Brasil existem milhões de pessoas sem terra! Ou seja, sobrevivendo à mercê da sorte, como párias numa sociedade que valoriza a posse.
Mas se uns nada têm, outros têm demais. Eis aí um grande problema, visto que, na defesa de grandes áreas, algumas maiores que países, os que se julgam donos usam da força desproporcional para tê-la, retirando o direito dos que por origem deveriam possuí-la e mantê-la, mas em sendo fracos as perdem pela força da bala que expropria as terras indígenas e abre fronteiras para a exploração econômica, com consequências graves no meio ambiente e no campo social, e os resultados via de regra beneficiando a poucos, enriquecendo uns e ampliando a miséria no entorno, ao favorecer a concentração de terra nas mãos dos latifundiários.
E já que o direito à terra é sagrado, assim como a obrigação de poder defendê-la, trata o Estado desigualmente estes latifundiários, justificado no poder do agronegócio, favorecendo assim os interesses econômicos em detrimento do meio ambiente e do desenvolvimento social, negando o direito à terra para milhões de famílias no campo que nutrem esperança de uma reforma agrária para conquistarem o seu pedaço de chão, e dele fazerem o ganha pão.
E este Estado que deveria proteger o direito à posse da terra, garantindo a sua função social, sucumbe aos interesses econômicos ao apoiar, em nome do desenvolvimento, o desmatamento de áreas imensas e a extinção de reservas em áreas amazônicas, prejudicando sobretudo a sustentabilidade ambiental e social. 
E tal como vilão, abandona a sua obrigação de zeloso guardião das terras do povo, entregando seus domínios ao capital estrangeiro que, somente interesse terá nas riquezas escondidas nestas terras e nada mais. Não se sabendo ao certo o legado que nos restará.
E o que te pertencia já não é teu mais, tendo sido a outros destinado e assim ferindo o direito do povo brasileiro à sobrevivência e a um futuro sustentável, com melhoria da qualidade de vida e cidadania.
E quem é este que nosso Estado representa, seria o mesmo que representa o povo de suas terras?





Literatura e Educação – uma conversa dirigida para crianças

Por Joaquim Maria Botelho

Quando a gente vem pra escola e recebe educação, a coisa mais importante que a gente recebe é a consciência da nossa identidade. Com a educação, podemos perceber quem somos de verdade. 
Por que é importante conhecer a história? 
Porque quando vocês nasceram, o mundo já existia, nossos pais já haviam trabalhado muito, o Brasil já era um país grande – o quinto maior país do mundo em extensão territorial, nosso time de futebol já havia vencido cinco Copas do Mundo, nossos três pilotos mais importantes de Fórmula 1 já tinham sido campeões de automobilismo. E a escravidão já tinha sido abolida. 
Sabem por que é importante conhecer a história?
Por exemplo, quem foi Napoleão?
Vocês devem ter visto pela televisão e pela Internet que neste ano se completam 200 anos da Batalha de Waterloo, uma luta na Bélgica que derrotou Napoleão Bonaparte. E quem foi Napoleão? Vocês sabem? 
Pois foi um general francês, baixinho, muito bravo e briguento. E que importância esse homenzinho teve para o nosso país?
Bem, mais ou menos em 1805, ele reuniu um enorme exército e resolveu que queria conquistar o mundo inteiro. Saiu conquistando muitos países na Europa. Quando estava perto de atacar Portugal, o príncipe de lá, que se chamava Dom João, ficou com muito medo, juntou a família, encheu treze caravelas com as suas coisas e sua corte e veio correndo para o Brasil. Portugal, na época era dono do Brasil. Lembram que foi Portugal que descobriu o Brasil em 1500, pelo capitão Pedro Álvares Cabral? 
O Brasil era um país grande e selvagem, e pouca gente morava aqui. O príncipe Dom João é que mandava em Portugal e no Brasil, porque a rainha, mãe dele, estava pirada e não conseguia tomar decisão alguma. 
Dom João chegou ao Brasil, no ano de 1808, com mais ou menos duas mil pessoas e foi morar no Rio de Janeiro, e por isso o Rio se transformou na nossa primeira capital. 
Como era um homem inteligente, Dom João criou uma biblioteca para que as pessoas pudessem consultar livros e assim aprenderem sempre mais. Foi a Biblioteca Nacional, que ainda existe e é muito importante. Logo depois criou a Imprensa Oficial do Estado, para que o Brasil pudesse imprimir livros, jornais, e documentos importantes como leis e decretos. Também criou os Correios, para que as pessoas pudessem mandar e receber correspondências e assim ter notícias de suas famílias que ficaram em Portugal. Dom João criou também o Banco do Brasil. E também criou a Casa da Moeda, para produzir o dinheiro que o brasileiro passou a usar, e que naquela época já se chamava real. Viram que príncipe inteligente? Foi por causa dele que o Brasil, que era um país grande e selvagem, começou a se modernizar. 
O Brasil ficou tão moderno que surgiram até escritores. 
Um desses escritores era um homem muito interessante. Ele se chamava Joaquim Maria, como eu. Mas ele ficou conhecido pelo sobrenome, que era Machado de Assis. 
Mas o Brasil, nessa época, ainda tinha um problema. Um problema muito sério: ainda havia a escravidão. Tribos de negros eram trazidos da África, principalmente de Angola, para trabalhar de graça para os donos de terras aqui no Brasil. E sofriam muito, porque apanhavam se não trabalhassem direito, ganhavam pouca comida. Aliás, quando os fazendeiros matavam um boi e um porco para fazer churrasco, os negros não podiam participar. Então, o que eles faziam? Pegavam o que sobrava do boi e do porco e que não servia para fazer churrasco, isto é, o fígado, os rins, os pés, as orelhas, cozinhavam tudo com feijão e assim nasceu a feijoada...
Mas, aos poucos, os negros foram conseguindo se libertar, alguns lutando, outros fugindo e se escondendo no mato, onde criavam acampamentos que se chamavam quilombos. Mas muitos negros foram libertados pelos próprios patrões, que ficavam com pena do sofrimento deles e que tinham consciência do respeito que a gente deve ter com as pessoas. Aprenderam a respeitar os outros porque receberam educação na escola. E é esse o papel mais importante da escola, sabiam disso? Ensinar que todo mundo deve ser respeitado, mesmo sendo diferentes.
Pois eu estava contando sobre Machado de Assis. 
Ele era negro, e não era escravo porque a mãe dele tinha sido libertada pelo patrão dela. Mas era pobre. A mão era lavadeira e ele ajudava nas despesas da casa vendendo cocada na rua. Machado de Assis também era gago e, por ter vergonha disso, era muito tímido. Mas era muito inteligente e muito determinado. Morava no Rio de Janeiro e ia todos os dias até a Biblioteca Nacional e lia muito livros. E não perdia um só dia de aula. Foi aprendendo tanto que em pouco tempo sabia muito bem a língua portuguesa e também o francês. Conseguiu emprego de ajudante numa gráfica e não demorou muito para que o chefe dele percebesse que ele sabia escrever muito bem. E deu a ele a chance de escrever para o jornal. Começou a fazer poesias, depois começou a escrever crônicas. As pessoas gostavam muito do que ele escrevia e ele começou a ficar famoso. 
Acontece que ainda havia poucas escolas no Brasil. Por isso, havia muita gente analfabeta. Então, o costume da época era este: logo depois do jantar, a família se reunia na sala e aquela pessoa da casa que sabia lera pegava o jornal e lia em voz alta para todo mundo. Não era um costume bacana?
Foi desse jeito que Machado de Assis ficou conhecido no Brasil inteiro. Porque todo mundo conhecia o que ele escrevia. 
E o que ele escrevia? Histórias sobre os sentimentos das pessoas. Falava de amor, de tristezas, de sonhos e de esperanças. Ele sabia escrever sobre tudo o que as pessoas sentiam no coração. E por isso ele fez muito sucesso. Porque todo mundo sente as mesmas coisas, mesmo que sejam diferentes. Os ricos amam seus pais; os pobres também. Os mais velhos sentem raiva, às vezes; os mais jovens também. Todo mundo trabalha. Todo mundo quer se divertir. Todo mundo fica doente de vez em quando. E todo mundo morre, porque morrer faz parte da vida. Quer dizer: Machado de Assis falava de sentimentos e de acontecimentos que existem para todas as pessoas, não importando se são jovens, velhas, ricas, pobres, brancas, negras. 
Machado de Assis até se esquecia de que era negro, porque a cor da pele não tinha importância para ele. Aliás, a cor da pele não deve ter importância para ninguém. Só para os tolos.
E o que é ser negro?
Do ponto de vista da humanidade, não quer dizer absolutamente nada. Nós todos somos pessoas, diversas, diferentes, viventes, dotadas das mesmas qualidades e, por que não?, dos mesmos defeitos. 
Do ponto de vista da história, os negros carregam uma carga cultural específica, por causa da escravidão que sofreram. Chegaram ao Brasil trazidos à força, com um passado diferente, outros costumes, outros desafios. Tiveram que trabalhar demais, sem liberdade. Por isso a história dos negros é diferente, mas na essência são pessoas como todas as outras, com os mesmos sonhos e ideais. Simples assim.
Pois Machado de Assis foi negro. E o maior escritor da língua brasileira. 
Foi tão importante que o imperador Dom Pedro II contratou os serviços dele para escrever mais sobre o Brasil. É que o Brasil tinha ficado independente de Portugal, mas não bastava isso. O Brasil precisava ficar independente também na literatura, e escrever a sua própria história, em vez de apenas ter livros feitos pelos portugueses. Que rei sábio, hein? Deu apoio aos escritores brasileiros. 
Mas havia outros escritores que se preocupavam com a situação dos negros que continuavam escravos. 
Um deles se chamava Luiz Gama. Também era negro. Nasceu em 1830, nove anos antes de Machado de Assis. Nasceu na Bahia. Era filho de um fidalgo português e de Luiza Mahin, negra livre que participou de diversas insurreições de escravos. Teve uma vida boa até os dez anos de idade. Brincava, nadava na praia, não tinha preocupações. Mas não ia para a escola, porque na Bahia ainda não havia escola para todo mundo.
Mas sua história de vida foi bem diferente. Enquanto Machado de Assis teve a sorte de ser criado por uma família pobre, mas livre e que tinha grande apreço pela educação, Luiz Gama, aos 10 anos de idade, foi vendido como escravo pelo pai para pagar uma dívida de jogo. Foi comprado pelo alferes Antônio Pereira Cardoso (alferes era como eram chamados, na época, os tenentes do exército). Luiz Gama foi levado para Rio de Janeiro, e depois para diversas cidades de São Paulo, até ser levado ao município de Lorena, onde o dono dele tinha uma fazenda de café.
Trabalhava muito, plantando, colhendo, limpando mato. Quando tinha dezessete anos, um estudante ficou hospedado na fazenda. Vendo a inteligência de Luiz Gama, resolveu ensinar o moço a ler e a escrever. Um ano depois, Luiz Gama fugiu para São Paulo e alistou-se na Força Pública da Província de São Paulo. Chegou a ter a patente de cabo e permaneceu até o ano de 1854 quando foi obrigado a dar baixa por responder ao insulto de um oficial.
Em 1850 casou-se e tentou frequentar o Curso de Direito do Largo do São Francisco. Por ser negro, enfrentou a hostilidade de professores e alunos, mas persistiu como ouvinte das aulas. Não concluiu o curso, mas o conhecimento adquirido permitiu que atuasse na defesa jurídica de negros escravos.
Na década de 1860 destacou-se como jornalista e colaborador de diversos jornais. Escrevia poemas ridicularizando os poderosos de seu tempo. Hoje, é reconhecido como um dos grandes poetas do romantismo brasileiro.
Luiz Gama foi um dos maiores líderes abolicionistas do Brasil. Sempre esteve envolvido nos movimentos contra a escravidão e a favor da liberdade dos negros. Em 1869, fundou com Rui Barbosa o Jornal Radical Paulistano. Em 1880 foi líder da Mocidade Abolicionista e Republicana.
Um dia, escreveu isto:
Nos Tribunais, como falava muito bem e conhecia as leis, conseguiu libertar mais de 500 escravos. Nessa época, um dos preconceitos racistas mais difundidos dizia (como ainda hoje diz) respeito ao suposto odor que proviria dos negros. Por isso, no Brasil do século XIX, uma das gracinhas mais comuns era chamar os negros de “bodes”.
Vamos ver alguns pequenos trechos do seu poema “Quem sou eu?” (também conhecido como “Bodarrada”)

Quem sou eu? que importa quem?
Sou um trovador proscrito,
Que trago na fronte escrito
Esta palavra — Ninguém! —
Amo o pobre, deixo o rico,
Vivo como o Tico-tico;
Não me envolvo em torvelinho,
Vivo só no meu cantinho:
Da grandeza sempre longe,
Como vive o pobre monge.
Tenho mui poucos amigos,
Porém bons, que são antigos,
Fujo sempre à hipocrisia, 
À sandice, à fidalguia;
Das manadas de Barões.
Mas eu sempre vigiando 
Nessa súcia vou malhando 
De tratantes, bem ou mal 
Com semblante festival. 
Dou de rijo no pedante 
De pílulas fabricante,
Que blasona arte divina,
Com sulfatos de quinina,
Trabusanas, xaropadas,
E mil outras patacoadas,
Que, sem pingo de rubor,
Diz a todos, que é DOUTOR!
Não tolero o magistrado,
Que do brio descuidado,
Vende a lei, trai a justiça
— Faz a todos injustiça —
Com rigor deprime o pobre
Presta abrigo ao rico, ao nobre,
E só acha horrendo crime
No mendigo, que deprime.
- Neste dou com dupla força,
Té que a manha perca ou torça.
Fujo às léguas do lojista,
Do beato e do sacrista 
Crocodilos disfarçados,
Que se fazem muito honrados,
Mas que, tendo ocasião,
Mais ferozes que o Leão. 
O que sou, e como penso,
Aqui vai com todo o senso,
Posto que já veja irados
Muitos lorpas enfunados,
Vomitando maldições,
Contra as minhas reflexões.
Eu bem sei que sou qual grilo
De maçante e mau estilo;
E que os homens poderosos
Desta arenga receosos
Hão de chamar-me — tarelo,
Bode, negro, Mongibelo;
Porém eu que não me abalo,
Vou tangendo o meu badalo
Com repique impertinente,
Pondo a trote muita gente.
Se negro sou, ou sou bode
Pouco importa. O que isto pode?
Bodes há de toda a casta,
Pois que a espécie é muito vasta.
Há cinzentos, há rajados,
Baios, pampas e malhados,
Bodes negros, bodes brancos,
E, sejamos todos francos,
Uns plebeus, e outros nobres,
Bodes ricos, bodes pobres,
Bodes sábios, importantes,
E também alguns tratantes
Aqui, nesta boa terra
Marram todos, tudo berra;
Nobres Condes e Duquesas,
Ricas Damas e Marquesas,
Deputados, senadores,
Gentis-homens, veadores;
Belas Damas emproadas,
De nobreza empatufadas;
Repimpados principotes,
Orgulhosos fidalgotes,
Frades, Bispos, Cardeais,
Fanfarrões imperiais,
Gentes pobres, nobres gentes
Em todos há meus parentes.
Entre a brava militança
Fulge e brilha alta bodança;
Guardas, Cabos, Furriéis,
Brigadeiros, Coronéis,
Destemidos Marechais,
Rutilantes Generais,
Capitães-de-mar-e-guerra,
— Tudo marra, tudo berra —
Na suprema eternidade,
Onde habita a Divindade,
Bodes há santificados,
Que por nós são adorados.
Entre o coro dos Anjinhos
Também há muitos bodinhos.
O amante de Siringa
Tinha pêlo e má catinga;
O deus Midas, pelas contas,
Na cabeça tinha pontas;
Zeus quando foi menino,
Chupitou leite caprino;
E, segundo o antigo mito,
Também Fauno foi cabrito.
Nos domínios de Plutão,
Guarda um bode o Alcorão;
Nos lundus e nas modinhas
São cantadas as bodinhas:
Pois se todos têm rabicho,
Para que tanto capricho?
Haja paz, haja alegria,
Folgue e brinque a bodaria;
Cesse pois a matinada,
Porque tudo é bodarrada!

Luiz Gama faleceu em 24 de agosto de 1882 e foi sepultado no Cemitério da Consolação, na presença de 3.000 pessoas numa São Paulo de 40.000 habitantes.
Apenas para tratar das aproximações que existem entre as literaturas de Machado de Assis e de Luiz Gama, devo dizer que a literatura PODE ser engajada, mas não precisa ser engajada.
A literatura deve ser livre, como o homem deve ser livre.
Machado de Assis falou dos grandes dramas da psicologia humana. Luiz Gama falou dos grandes dramas da sociologia humana. Mas ambos trataram da liberdade.
Pois é isso. Cada um produziu a literatura que preferiu, que escolheu. Cada um atendeu a um chamado diferente.
Cada um com o seu pendor, cada um com o seu valor, e ambos com o mesmo amor.


 





Joaquim Maria Botelho, Jornalista, Professor,Escritor, Mestre em Literatura e Crítica Literária. - Foi Presidente da UBE - União Brasileira de Escritores entre 2010 e 2015.

Betinho, o herói mirrado: “A Democracia é incompatível com a miséria.”

Por Dr. José Anézio Palaveri

Viveu, sofreu, deu a vida para os pobres mesmo antes de morrer.
Na altura de sua magreza comeu o pão que o diabo amassou durante seus exílios por este mundo a fora...
Vítima da hemofilia por herança, outra vez vítima do sistema de saúde recebendo transfusões de sangue numa época em que os bancos de sangue eram mal fiscalizados recebeu o vírus da AIDS, não só ele, mas seus dois irmãos, o Henfil e o Francisco.
Idealista, ideologicamente de esquerda, sobreviveu à ditadura militar, sem perder seu idealismo. Criando entidades históricas como o IBASE e depois do exílio, sensibilizado pelos pobres e pela fome de muitos brasileiros, conseguiu reunir um grupo de brasileiros, junto com Dom Mauro, bispo de Santo André, em torno da Ação da Cidadania contra a Fome, contra a Miséria e pela Vida, que nos anos noventa reuniu centenas de pessoas em socorro dos pobres tendo conseguido minorar o sofrimento de centenas de brasileiros, mostrando que o Brasil tem jeito.
Foi militante da Juventude universitária católica, e criador da Ação Popular, um dos movimentos que despertaram brasileiros para mudanças e dizimados pela ação da revolução de 1964, mais conhecida como golpe por sua evolução após 1968.
Para conseguir parceiros e despertar jovens para seus trabalhos dava o exemplo do beija flor combatendo o incêndio na floresta.
Nossos jovens e os atuais professores precisam conhecer esta história. Muitos de nós podemos despertar as lideranças para diminuir o sofrimento do povo. Mas parece que seguimos o caminho inverso com as medidas tomadas por nossos políticos e governantes desta década.
Após despertar muitas lideranças mostrando que há muito que se fazer e muito pode ser feito se formos menos egoístas, Betinho foi definhando sem perder as esperanças, morreu magrinho em 1997 e nestas semanas relembramos sua morte, seus sacrifícios após vinte anos.
Em entrevistas históricas ele diz que se assustou quando o presidente Itamar, em 1993, adotou, como política contra a fome, os princípios que ele criou para a Ação da Cidadania. Ele e Dom Mauro participaram até do Conselho de ministros.
Sua pregação: A ação em cima do prato tinha um apelo simples e mobilizador para as pessoas. E conseguiram diminuir a fome e a mortalidade pela desnutrição no período. Mas o Betinho se foi, deve estar torcendo lá do céu para aqueles que ainda olham para os pobres sem preconceitos...
A fome tem pressa, ele continua gritando...
“Há muita diferença entre o viver e o morrer... Agora é com vocês!”

Parece que ainda estou escutando seu grito... Não é possível que alguém ainda morra de fome em nossos tempos, com tantos progressos tecnológicos e tantas lições aprendidas...!

Dr. José Anézio Palaveri, médico, APLACE




O golpe de Estado de 2016: fatores externos

Por Levi Bucalem Ferrari


Durante os debates que antecederam o impedimento da Presidente Dilma Rousseff, a maioria dos que defendiam aquele govrno legítimo utilizavam argumentos de ordem ética, jurídica, de políticas social e assemelhada.  Para estes, não havia motivos suficientes, nem provas que justificassem o ato político-cirúrgico de enorme gravidade no então suposto Estado de Direito brasileiro. Argumentando por essa via, consideravam que sua “razão” os faria vitoriosos; convenceriam população, parlamentares e, em último caso, o Supremo Tribunal Federal. Fazendo pouco caso de Júlio César esqueciam-se da grande máxima imperial: Se vis pacem para bellum. Em outras palavras, praticavam aquela ingenuidade divulgada pelo romantismo e pelos filmes anglo-americanos: vence a guerra quem tem razão.

Alguns poucos destoaram da ilusão preferindo acreditar em Júlio César e em seu descendente direto Niccoló Machiavelli: qualquer disputa política é determinada pela correlação de forças muito mais do que pela razão, mesmo quando a respalda forte argumentação ético-jurídica. Isto considerando, muito antes da efetivação do “impeachment” era possível dar o golpe de Estado como certo.

Outro aspecto digno de nota é o de que nós, brasileiros, temos o costume de olhar demais o próprio umbigo esquecendo-nos do que vai pelo mundo como também de ter uma visão histórica de mais longo prazo. Além de puxar pela memória, busco ler o que se publica lá fora. Enfim, muito me valeu a leitura de Moniz Bandeira, pensador brasileiro que mora na Alemanha e que se dedica hoje mais a questões internacionais. Seus livros A Formação do Império Americano; A segunda Guerra Fria; e, posteriormente, A Desordem Mundial, foram e são valiosos para a compreensão do golpe de 2016, embora não tratem apenas disso.

Bem antes do fatídico agosto de 2016, já se podia saber que EUA, OTAN, e seus mecanismos financeiros e estratégicos queriam “domesticar” o Brasil que, durante os governos de Lula e Dilma, mostravam inequívocos sinais de uma política externa independente, soberana e pouco obediente às potências mencionadas. Além disso, desenvolviam pesquisas próprias e avançadas na área de defesa e conexas; celebravam convênios de cooperação, investiam e comerciavam com países fora do eixo EUA-OTAN. O contexto e a vontade política favoreciam nossos projetos de emancipação tecnológica. E, da mesma forma, nos colocavam como parceiros, e mesmo líderes, junto aos demais países que também buscavam caminhos alternativos.

Internamente, as políticas sociais levadas a efeitos nos últimos anos eram um péssimo exemplo para outros países em desenvolvimento porque havia o perigo de que muitos deles pudessem querer nos imitar. Também essas política criaram uma predisposição de nossas elites sempre amedrontadas e preconceituosas com a ascensão das classes subalternas. Ninguém tomou a casa ou o automóvel de ninguém, mas o fato de os “servos da gleba” terem seu próprio automóvel ou sua casa era o bastante.

Juntados os fatores de política interna e externa mencionados acima e outros dos quais se falará, o Brasil passou a merecer a atenção do Império e potências aliadas que buscaram, em aliança com nossa mídia comprável e nossas elites neocoloniais, realizar a "primavera" brasileira, a exemplo do que foi feito e se estava a fazer em diversos países do mundo, como se estes fossem um conjunto de peças do conhecido jogo de tabuleiro denominado WAR.

Este longo processo – que haveria de caracterizar uma “nova guerra fria” – começara com o desmantelamento da antiga União Soviética e o enfraquecimento e fragmentação de alguns Estados que a compunham. Sob diferentes formas, o processo continuou pela Iugoslávia, Iraque, Afeganistão, Cáucaso, leste europeu, países árabes e agora estaciona na Síria. Não por acaso. Ali, finalmente, Rússia e Irã, seguidos pela China e alguns países árabes, resolveram por um basta nos joguinhos de guerra imperiais. Ou, pelo menos, dificultar a brincadeira.

A atual guerra fria guarda diferenças significativas com a antiga. Aquela era um jogo de peças movidas por potências com poder de fogo quase equivalentes. A nova, mais agressiva, resulta de um largo período de potência única pelos EUA desde o início dos anos 90. Os EUA sentiram-se à vontade para praticar mudanças de regime político (regime changes) em todos os países em que seus interesses econômicos ou estratégicos estivessem em jogo. A OTAN virou um mero instrumento dessa política, além de auxiliar a submeter a Europa.

Destacam-se três formas de atuação imperial embaladas por ideologias e propagandas diferentes. Num caso, como ocorreu no Afeganistão, no Iraque e na Líbia, “justificava-se” a invasão direta, pela difusão ora da falta de democracia, ora da existência ou apoio a grupos terroristas, ora da fabricação de armas de destruição em massa. Outra forma, como ocorreu na Iugoslávia, Ucrânia, países do Cáucaso e alguns países árabes, caracterizava-se pela formação e apoio de grupos rebeldes internos – inclusive falsas ONG´s – que se encarregam da ação direta contra seus governos. A terceira forma se deu em países americanos como Honduras, Paraguai, Argentina e Brasil, onde as regime changes mais se pautaram em influenciar as eleições e/ou apoiar procedimentos parlamentares e jurídicos. Essas três estratégias não são excludentes, havendo em alguns casos – como no das “primaveras árabes” do norte da África – a utilização de mais de uma dessas estratégias.

Por um largo período as guerras e golpes levados a efeito em outros continentes fizeram com que Os EUA, "esquecessem" um pouco da América Latina. Enquanto isso, as potências ocidentais, aproveitando-se da desorganização e enfraquecimento da Rússia, foram picando e trazendo para sua área de influência, alguns países que a compunham. E foram além, tentando comer pela beiradas a própria Federação Russa, como foi - e ainda é - o caso da Ucrânia. À época perguntava-se com certa perplexidade, até quando a Rússia, ex- potência mundial, gigantesca, iria suportar o acelerado avanço do ocidente (entenda-se EUA e OTAN) em seus contornos e beiradas.

Foi ponto nodal nesta fase do processo, o Afeganistão. Chamado ironicamente pelos EUA de "Vietnã da URSS" teve sua guerra de libertação - com a necessária propaganda interna e externa - financiada pelas potências ocidentais e pelas ricas monarquias medievais da Península Arábica.

Propaganda interna porque se tratava de convencer setores mais radicais do Islamismo a não permitir a presença de ateus comunistas em seu “solo sagrado”. Externa, porque o mundo deveria saber que o jugo soviético era nocivo e que a democracia só seria atingida com a tutela do ocidente. Logo depois, ao empolgarem o poder com a ajuda de EUA e OTAN, os Talibãs impõem leis e costumes abusivos aos direitos humanos e, externamente posicionam-se contra o ocidente, seu novo "Satã". A ponto de ajudar o movimento Al Qaida a derrubar as torres gêmeas em Nova Iorque. O tiro saíra pela culatra.

Em seguida, EUA e aliados se voltam para o Oriente Médio e norte da África. Movimentos "democráticos" financiados secretamente pelas potências ocidentais e pelas monarquias da Península Arábica conseguem derrubar os "ditadores" laicos, substituindo-os por fundamentalistas islâmicos. Depois de intensa propaganda (novamente interna e externa) e guerras genocidas em alguns casos, instalam-se governos ultra-radicais e/ou desgovernos no Iraque, Egito, Tunísia e Líbia. Em relatório recente da observadora da Anistia Internacional na Líbia, a autora afirma que o desrespeito aos direitos humanos aumentou violentamente depois da queda de Kadafi, e que ela não tinha sequer a quem denunciar. Com exceção de um raio de poucos quilômetros além da capital, cada região era controlada por chefes tribais que impunham suas prórias leis e eram, em sua maioria rivais entre si.     
Tais arranjos institucionais estão distantes de se constituírem em governos nacionais posto que não são reconhecidos ou respeitados em seu próprio território. Isto também nos permite supor que, ao modo do Afeganistão alguns deles poderão, no futuro, voltar-se contra os próprios "libertadores".

Neste processo, merece atenção a Síria, onde a ação de subjugação e/ou desmembramento de Estados nacionais foi estancada principalmente pelo enérgico apoio russo e iraniano. Digamos que há um impasse ou empate técnico entre potências contra e a favor de Assad. O que a imprensa não nos diz é que o “ditador” sírio respeita (e tem o apoio) das minorias étnicas e religiosas, enquanto que seus opositores mais próximos, as monarquias da Península Arábica, trucidam quaisquer formas de oposição, praticam o assassinato por crença, e restringem de várias formas – e até violência - direitos fundamentais para mulheres.

Já dissemos que, enquanto as potências se ocupavam daqueles países, a América Latina, gozou de alguma tranqüilidade. O Brasil pôde implementar projetos de desenvolvimento econômico e social e consolidar uma política externa independente através do MERCOSUL e da UNASUL. Fez oposição e ajudou a derrubar a ALCA, que muito interessava aos EUA, além de aumentar investimentos e relações comerciais e culturais com Cuba, Angola, Moçambique e outros. Pôde também comprar aviões e submarinos, celebrar consórcios de intercâmbio tecnológico. Essa “desobediência” cresce em importância quando se lembra que nosso país exerce alguma liderança sobre outros países latino-americanos. Lindon Johnson já justificava o apoio ao regime militar no Brasil ao afirmar que, para onde o Brasil for irá o restante da América do Sul.

De todas as iniciativas estratégicas do Brasil a que mais preocupou os EUA foi a de nossa participação no BRICS. Grupo de cooperação econômica, comercial e estratégica entre países em desenvolvimento criado em 2006 e composto inicialmente de Brasil, Rússia, Índia e China ao qual se incorporou a África do Sul em 2011. De certa forma, o BRICS se opunha ao G7 composto pelos países mais ricos do mundo à época de sua criação (EUA, Japão, Alemanha, Inglaterra, França, Itália e Canadá) e, bastante obediente à supremacia do primeiro. Além de projetos de cooperação comercial e tecnológica, o BRICS mais assustava pela de criação de um banco de fomento e a substituição do dólar por nova moeda de transações internacionais, o que muito enfraqueceria o poder do dólar e, consequentemente, dos EUA.

Somados os fatores já elencados, o projeto imperial passou a ser o de derrubar Dilma e colocar algum governante mais dócil aos propósitos estadunidenses. Para tanto, basta atrair, treinar (às vezes pagar) membros do MPF, da PF e do Poder Judiciário, bem como, financiar algumas ONG´s como o Movimento Brasil Livre – MBL, para dar legitimidade ao processo.

Ao lado disso, temos uma burguesia débil, sem projeto próprio, atrelada aos interesses internacionais, que não sabe o que quer e pelo que lutar; e uma classe média, tão horrendamente preconceituosa que não aceita a idéia de que sua empregada doméstica tenha automóvel, mesmo que ninguém tire o seu.

Por fim, os BRICS constituem-se no maior inimigo estratégico e de longo prazo dos EUA. Interessa inviabilizá-lo ou, pelo menos, mantê-lo longe da América Latina. O propósito passa a ser o de confrontar e enfraquecer os BRICS começando pelo membro mais vulnerável e mais próximo geograficamente: o Brasil.

Vale dizer que não interessava apenas tirar Dilma Rousseff do poder; Interessava sua substituição por um governo sem legitimidade, portanto mais dependente e obediente às potências. Interessam hoje as privatizações que vem por ai; o fim dos projetos desenvolvimento autônomo; e dos direitos sociais e trabalhistas que encareciam nossos produtos. Nessa direção atuará o governo Temer-Meirelles. Dessa forma pensam, certamente, os estrategistas anglo-americanos.



(*) Levi Bucalem Ferrari é cientista político e escritor. Foi presidente da UBE – União Brasileira de Escritores.

Os integralistas voltaram?

Por David Ranieri


Perplexo olho ao redor e vejo por todos os lados o que se escondia há tempos.
Eles sempre estiveram aqui, ali e acolá, mas não os víamos, estavam assim escondidos, às vezes escorregavam dizendo algo que poderia os identificar mas logo, desdiziam falando ser troça.
Mas sempre estiveram em toda a parte, somente nós não os víamos.
Entre eles não havia dificuldade de identificar um igual, e tampouco de arregimentar quem de algum modo mostrasse simpatia com o pensamento.
Hoje estão ai, já falam ao púbico sem pudor. São muitos e podem em algum momento reacender a pira integralista que com muito custo foi apagada, mas cujas brasas esconderam até os dias de hoje.
E caso não os conheceis, são de fácil identificação, e não se escondem mais.
Dizem querer varrer do país a corrupção, os comunistas, os esquerdistas, os imigrantes, os migrantes, os pobres, os gays e, apurar a raça para mudar a cara do país.
Se com estas dicas ainda restarem dúvidas, procure conversar com um eleitor declarado do Bolsonaro e entenderá quem são!
Se o medo não percorrer tua espinha, é por quê não conheceu o passado, e tampouco entendeu o quanto é contrário à humanidade esta ideologia que no mundo recebeu um nome proibido e aqui foi chamado de Integralismo.
E de mito a santo, com deus, a família e a pátria, os integralistas voltaram?


Vencer na resistência!

Por Fernando Horta

Ontem eu li que a esquerda brasileira estava COMEÇANDO a fazer reuniões com coletivos e sindicatos para decidir o que fazer. Daí acho que compreendi o Plano Rocky Balboa de resistência brasileira. 

Eles começaram em 2013 com protestos "apoliticos". Depois criaram centenas de sites e memes ofendendo Deus e o mundo. Daí em 2014 paralisaram o congresso e a esquerda achou que era o caso da luta institucional. Apanhou o primeiro round com o juiz Gilmar Mendes tocando o gongo em decisão liminar-fantasma travando o Lula ministro. 

Claro que continuamos no plano de cansarmos eles, fomos chamando de "coxinhas" e eles foram cegando repórteres com bala de borracha, espancando estudantes e a esquerda preocupada com as vidraças e "em não dar motivo para eles usarem violência". Afinal, eles precisam de motivos. Apanhamos o segundo round sem dó, com o Willian Waack narrando toda tunda e os tribunais dizendo que é isto aí mesmo, o olho cegado do repórter estava no lugar errado. Ele não deveria ter colocado o olho no caminho da bala de borracha da PM. 

Seguimos a nossa estratégia, gritamos que não ia ter golpe. Teve. E daí, no ápice da revolta, o pessoal cantou aquela Carmina Burana linda com o Fora Temer. Chego a me arrepiar! Aí eles tomaram o Estado, a grana e o comando de tudo. Mas a gente achou que tinha volta no senado. O senado é uma casa diferenciada e racional. Apanhamos bem apanhado o terceiro round. Teve até senadora gaúcha, funcionária fantasma do senado e marido apoiador da ARENA, vestida de caturrita votando pelo impicho. 

Eles então passaram lei permitindo o corte do ponto imediato em caso de greve, com o supremo com tudo. Leiloaram todos os cargos de 1o, 2o, 3o escalão e todo mundo ficou mandando. Aí inventamos o trepidante "vomitaço". O Zuckerberg se apavorou e veio nas redes pedindo calma. A gente foi vomitando e os caras pararam de pagar todo mundo no RJ. Todo mundo. E a gente no vômito digital. Os caras sentindo a pressão. O cansaço deles de ficarem nos esmurrando era evidente. No ES, um pessoal da PM que tem as faculdades mentais em funcionamento, resolveu se revoltar. Agora vai! Vai todo mundo em cana e perdendo emprego e aposentadoria. Apanhamos o quarto round com o Frota sendo recebido no ministério da educação com "sugestões" para melhorar a educação brasileira. 

Mas a esquerda não pensou em nada. Seguiu firme, no plano o original. Cunha preso. Vai cantar que nem passarinho. Passeata, Paulista lotada, Fora Temer pegando geral. A única coisa que pegava mais era a borracha da PM no pessoal. Mas o Temer.... Apavorado no Palácio. Tava com tanto medo que se mudou de volta para o jaburu. Até o fantasma do Planalto era mais efetivo que a esquerda. Apanhamos o quinto assalto torcendo para o fim de 2015. Ô maravilha de ano aquele. Metemos trocentos recursos para anular o impicho. Agora é pressão no stf! 

Começa 2016 caindo avião. Todo mundo encagaçado em Brasília. Escorrendo perna abaixo. Mas a gente ali, cansando eles. Uma hora eles cansam de nós bater. "Já acabou, Jéssica?". Mas podemos dizer que nunca se fez tanta passeata ordeira. Aparecía gente "infiltrada" e nossa vigilante esquerda já filmava com seus poderosos celulares da liga da justiça e todos protegemos as vidraças. Imagine, bicho em extinção. "Tem que manter isto, hein?", "Com supremo, com tudo". E os caras metendo projeto para ferrar o país e cortando verba pra todo lado. Mas era tanta verba cortada que o déficit pirou e resolveu AUMENTAR. E descobrimos que a PM bate nas pessoas por amor, não é trabalho não, é amor. Mesmo sem receber eles continuam descendo a borracha. Mas a gente se continha e não dava motivo para eles apelarem para a violência. Ainda bem. Apanhamos o sexto assalto inteirinho. Foi tanto soco que no final a gente não sabia mais para que lado voltar. Uma parte da esquerda, perdidinha, voltou para o lado direito. 

Mas vamos embora, segue o plano! Moraes não vai assumir o STF e o Moreira (também conhecido como Angorá) vai ser preso! Foi outra sova. Ao som de Morais Moreira mesmo que é pra gente aprender. Botaram no stf um tucano reserva na marcação e liberaram o Gilmar Mendes para avançar e atacar. É lá foi o Dantas parar a lava a jato. Botou dedo na moleira do Moro, chamou todo mundo de mentecapto e distribuiu tabefe às ganhas. E a inflação caindo. Uma beleza. Ninguém mais comprando nada.... A inflação nem existe. Corta aumento por 20 años, entrega o pré - sal e tudo isto com roda de oração nos ministérios. O sétimo assalto foi menos porrada. Apanhamos, mas eles já estão cansados. Jucá já nem falava mais no senado. Era só na verba. Libera aqui, libera lá e vamo que vamo. 

Quando começou o oitavo assalto, meio sem querer entrou um direto de esquerda na ponta do queixo. O Batista pegou forte. Gravação, Mala de dinheiro pra todo lado, rastreada. Umas pro Temer outras pro Aécio mata-o-primo. Temer sentiu o golpe. Mas aí chegou a turma do deixa disso. Separaram o clinch, entra médico avalia o Temer, a direita apreensiva e a gente ali, com os dois olhos fechados de tanto apanhar, mas firmes no plano inicial. Quando o juiz reinicia, levamos uma no queixo. Bem dada. Fim da legislação trabalhista. Agora vale o espancado sobre o legislado. E, de quebra, para mostrar quem é que manda, Moro condena o Lula. A coisa é tão escrachada que o juiz debocha do Lula. Elogia o combate à corrupção do ex presidente, fala que não tem prova, mas vai condenar mesmo. Porque a literatura jurídica permite. E no final ainda diz que está chateado de condenar "um ex-presidente". Mas eles vão cansar. Ahhh vão. É desumano submetê-los a tanta pressão. 

O nono assalto começa com o Aécio discursando de volta no senado, a irmã em casa, o primo morto-vivo também em casa e o Gilmarzão sendo sorteado para tudo. Ele e o tucano o reserva plagiador. A melhor dupla de zaga da história. Defendem tudo pro psdb e ainda têm sorte. Seguem batendo na gente. Travam processo de Mariana. Porque é assim mesmo, o que ocorreu lá é uma bobagenzinha uma laminha na casa das pessoas e o juiz que cuida do caso fazendo questão que os moradores COMPROVEM a impossibilidade de conserto dos eletrodomésticos. Se não fica claro que estão querendo enricar em cima das honestas empresas. A cara tá tão inchada que eles nem se preocupam mais em disfarçar. Termina o round com os "apoliticos" do MBL comendo pipoca na plateia, todos com cargos de confiança porque são contra o aparelhamento do Estado. 

O décimo assalto começa já com dois sopapos: o Distritão e o parlamentarismo. Isto para deixar claro que manda. Mas a gente responde furiosamente com ovo. Ovo pra todo lado. Até houve manifestação da China pedindo moderação. Os caras tão COMPLETAMENTE apavorados. É visível. Demos quatro anos de vantagens para eles, demos todas as verbas e o controle do Estado. Não demos desculpa para a violência e fica claro que estamos chegando onde queríamos: eles vão ter cãibras de tanto socar a gente. 
Agora que eles estão bem onde queríamos, a esquerda resolveu COMEÇAR a fazer reuniões para decidir o que fazer. Tá certo. 
Temos que reconhecer que, em todo este tempo a figura que mais foi efetiva na resistência foi o fantasma do Planalto. Este conseguiu afastar Temer do Palácio. 
Voto para que convidem o fantasma para as discussões, talvez ele tenha alguma coisa a nos ensinar...
Só lembrando que agora não dá mais para ganharmos por pontos, ou nocauteamos ou...

Edit1: É. Este é o golpe mais escrevinhado da história da humanidade. Eles metem porrada na gente e a gente escrevinha livro. Corta verba e salário e nóis mete mais livro. Contei 18 até agora. Te mete...

Edit 2: Antes que venham me encher o saco dizendo que as datas estão erradas eu digo que é licença poética. Depois de tanto apanhar o vivente ficar desorientado mesmo.

MUDANÇAS

Por Nando Antunes


O PÁSSARO NA MUDA, MUDA DE CANTO
E PARA OUTRO CANTO ALGUÉM SEMPRE SE MUDA
HÁ QUEM MUDE PRA MELHOR
HÁ QUEM MUDE PRA PIOR
MUDAMOS DE IDÉIAS COMO NUVENS MUDAM DE FORMAS
AO CRESCER MUDAMOS O CORPO E A VOZ
MUDA O DESEJO E MUDA O BEIJO
NA MUDANÇA TUDO SE TRANSFORMA

NAS RUAS DESCUBRO QUE A MINHA VOZ
NINGUÉM OUVE. SÃO RECLAMOS DE UM MUDO
E AÍ EU MUDO. ME JUNTO AO POVO E ME MANIFESTO
EU MUDEI E QUERO MUDANÇAS
AGORA SOU POVÃO. SOU MAIS UMA VOZ NO MEIO DA RUA
NA VIDA MUDEI PRA MELHOR
E VOU AJUDAR A POR FIM AO QUE HÁ DE PIOR
QUE VENHAM MUDANÇAS NAS MINHAS ANDANÇAS

NA MANIFESTAÇÃO GRITOS SOAM COMO CANÇÃO
E A MINHA VOZ DEPOIS DA MUDA E CHEIA DE EMOÇÃO
JÁ DÁ O TOM E VEM DO FUNDO DO CORAÇÃO
PORQUE MUDANÇAS NÃO SÃO EM VÃO.


Será que ainda “se faz um país com homens e livros”?

Por Marcelo Nocelli

A célebre frase atribuída a Monteiro Lobato – “Um país se faz com homens e livros” - ainda faz algum sentido para nós, brasileiros?  
Diante dos números das últimas pesquisas creio que não. Segundo as apurações, o brasileiro lê cada vez menos. Atualmente apenas 44% da população brasileira têm o hábito da leitura. Porém, mais assustador ainda, foi quando vi que destes, 15% não se lembrava o título do último livro que leu... Esse detalhe já coloca em xeque o “hábito da leitura”. Assustador também é saber que, ainda dentro destes 44% que responderam manter o hábito da leitura, outros 12% afirmaram que não só o último, mas a leitura constante é, única e exclusivamente, a bíblia. (Talvez seja necessário deixar claro que não tenho nada contra quem lê a bíblia), mas a minha constatação, então, é a de que apenas 17% têm realmente o hábito da leitura. A leitura em sua essência, múltipla, com propósito na busca de repertório, conhecimento, fluência na língua, vocabulário, visão de mundo, posicionamento político e social, referências, história, geografia, ciências, além da diversão também, é claro, e todos os milhares de benefícios que os livros podem trazer.
Outra frase excelente é a do poeta Mário Quintana: “Livros não mudam o mundo. Quem muda o mundo são as pessoas. Os livros só mudam as pessoas. ”
Somando essas duas máximas da literatura brasileira, a de Monteiro Lobato – escritor que publicou dezenas de livros adultos e que foi também editor, entre tantas atividades literárias que vão além do fantástico “Sítio do Pica Pau Amarelo”, conhecido pela maioria do povo brasileiro através da televisão, e não propriamente dos livros – com a de Quintana, me pergunto: será por isso, pela falta de leitura e contato com os livros e a literatura que o mundo não tem mudado? Que o país tem estancado? Ou melhor, tem mudado sim, mas para pior... Será por isso que estamos passando por esse processo de emburrecimento coletivo?
A jornalista Eliane Brum, escreveu recentemente que: “debater com seriedade a burrice nacional é mais urgente do que discutir a crise econômica e o baixo crescimento do país. A burrice está na raiz da crise política mais ampla. A burrice corrompe a vida; a privada e a pública. Dia após dia.”  
É exatamente isso que vemos em tempos de redes sociais, leituras banais, frases curtas e citações literárias, na maioria das vezes equivocadas, num mundo virtual de valores duvidosos e vida efêmera, sem leitura consistente, onde os mais tenebrosos absurdos amorosos são atribuídos à Clarice Lispector, frases de efeito e autoajuda são repetidas e compartilhadas como mantras, Simone de Beauvoir virou “baranga” e Bolsonaro mito, enquanto coraçõezinhos pululam na tela.
Confesso que não posso afirmar que a efemeridade das coisas, a exposição exagerada, a internet e as redes sociais (que também são recheadas de coisas boas) ajudaram mesmo a propagar a burrice, ou se só trouxeram à tona o que estava escondido mundo afora, dando voz a quem pouco falava, a quem não tinha coragem ou canal para falar... Agora, além dos benefícios, que sim, existem, as redes sociais jogaram à luz dos monitores, um monte de falácias das mais variadas... Outra escritora brasileira, a filósofa Marcia Tiburi, em seu livro “Como conversar com um fascista”, escreveu: “Se levarmos em conta que falar qualquer coisa está muito fácil, que falamos em excesso e falamos coisas desnecessárias, um novo consumismo emerge entre nós, o consumismo da linguagem.
O problema é que ele produz, como qualquer consumismo, muito lixo. E o problema de qualquer lixo é que ele não retorna à natureza como se nada tivesse acontecido. Ele altera profundamente nossas vidas em um sentido físico e mental. O que se come, o que se vê, o que se ouve, numa palavra, o que se introjeta, vira corpo, se torna existência”. E onde está sendo despejado esse lixo todo? Na internet, nas redes sociais, ao alcance de nossas crianças, o futuro do país.
O que permanecerá na memória da nossa população atual, e o que, realmente, influenciará a educação das nossas sociedades no futuro se não haverá mais livros nas estantes? Se quem cita Clarice Lispector na internet nunca leu um livro dela?
Se realmente livros mudam as pessoas e as pessoas mudam o mundo, se, realmente, um país se faz com homens e livros, está explicado porque o Brasil anda tão mal e porque nada muda por aqui, além das moscas...

Venezuela um novo Vietnã

Por Celso Amorim

“Venezuela is not very far away and the people are suffering and they’re dying,” Mr. Trump told reporters at his golf club in nearby Bedminster, N.J., after meeting with members of his national security team. “We have many options for Venezuela, including

A ameaça de uso da força tem que ser repudiada com veemência. Além de violar princípios básicos do Direito Internacional, ameaça trazer umas guerra civil (um novo Vietnã) para a América do Sul e a nossa fronteira. Embora não tenha dúvida sobre quem será vitorioso e quem será derrotado, uma guerra civil trará sofrimentos indizíveis ao povo venezuelano. Não podemos ficar indiferentes diante da agressão e da tragédia.

Celso Amorim, ex-Chanceler e como ex-ministro da Defesa

Os tabus de Chico

Por Ana de Hollanda, cantora, compositora, e ex Ministra da Cultura.

Não costumo postar comentários sobre o que se fala de Chico, até porque, além de nunca ter agradado a todos – o que é normalíssimo - ele não precisa de mim para defendê-lo. Mas o fato é que vejo gente que acredita estar abraçando uma causa progressista ao fazer coro a oportunistas de sempre que usam a popularidade dele para se projetar midiaticamente, através de qualquer polêmica. Há décadas a Folha de São Paulo - na época rompida explicitamente com Chico - costumava contratar garotos recém-formados para escreverem críticas detonando os trabalhos dele, declarando ser um artista ultrapassado, "datado", medíocre etc. etc. etc. Isso repercutia em todos os cantos e o jornalista anônimo, de uma hora para outra, se tornava celebridade entre os "a favor" e "os contra". Repetia a receita com outros artistas consagrados até que, depois de uns dois anos de polêmicas, já desgastado, era substituído por outro que aceitava a mesmíssima tarefa. Hoje, esses cinquentões estão soltos por aí, tentam conquistar alguma credibilidade, chegam a se declarar de esquerda e fazem o possível para que seus artigos na FSP permaneçam esquecidos.
Mas o fato é que agora, em função da canção recentemente lançada, TUA CANTIGA, parceria com Cristovão Bastos, pipocou nas redes uma série de artigos de figuras desconhecidas da quase totalidade dos leitores, com novas polêmicas, sendo mais frequentes as que acusam Chico de, além de velho, decadente, “datado” e ultrapassado, ser machista que não representa as mulheres contemporâneas (como se algum dia ele tivesse reivindicado o direito de representar quem quer que fosse, em relação a qualquer assunto).
A frase escolhida para detonar a convulsão foi declarar à amada: "largo mulher e filhos", de onde se deduz que o autor cultiva o adultério, coisa e tal. Imagino que as puritanas neo-feministas, nunca ouviram falar em Simone de Beauvoir, o que não deve vir ao caso, porque esta também pertence ao século passado. Mas condenam o autor da frase, sem terem se dado conta de que os personagens das canções de Chico - aliás, de qualquer ficcionista - não costumam ser autobiográficos. Que o compositor descreve situações e sentimentos corriqueiros, e até comuns, concordando ou não com eles. E que a criação artística é livre, ao contrário de uma tese acadêmica.
Mas, se for pelo caminho dos zeladores da nova moral, vamos nos preparar para a queima de livros clássicos dos séculos anteriores e para a censura aos maiores autores do cancioneiro popular do século XX. Na real, o que esse tipo de gente não admite é o sucesso de compositores que ocupam a mídia há mais de meio século. No caso específico, condena a obra e os autores, sem ter ideia de que o lundu feito por Cristóvão, estilo musical quase extinto, herança dos escravos, serviu de inspiração para Chico criar uma letra condizente, com imagens e expressões raras no linguajar atual.
Mas pelo visto, isso tudo é sutileza demais para tempos em que uma reflexão não pode ocupar mais do que 140 caracteres. Os novos reguladores da moralidade pública, representando a intolerância que vem ganhando adeptos no planeta, mostram sua cara amoldada para os tempos de Temer, de Trump, de Bolsonaro, de Crivella e outros fundamentalistas que ameaçam a liberdade de ideias, de criação e de opção de vida.




A RUA É NOSSA

Por Nando Antunes

SENTI UM MAU PRESSÁGIO
E CONTRA ELE EU REAJO
NUMA CORRENTE QUE SE ESBOÇA
- FORA OS PERVERSOS, SÃO DIVERSOS.
O PODER É DELES, MAS A RUA É NOSSA.

ESTICARAM O MEU HORÁRIO,
MAS NÃO AUMENTARAM MEU SALÁRIO
BRINCAM COM O POVO E FAZEM TROÇA,
MAS EU PROTESTO. AINDA ESTOU NO PÁREO.
O PODER É DELES, MAS A RUA É NOSSA.

SE A MISÉRIA É A FACE INTERNA
PORQUE A GRANA É PRA FACE EXTERNA?
DÊ UM POUCO PRA MINHA ROÇA
NÃO ACEITO A INJUSTIÇA ETERNA
O PODER É DELES, MAS A RUA É NOSSA.

LEIO QUE O FILHO E SOBRINHA DO DEPUTADO
EMBARCARAM NO TREM DA ALEGRIA LÁ DO SENADO
ENQUANTO ISSO O POVO SE ESPREME EM CARROÇA
MAS UM DIA A CASA CAI
E A NAÇÃO ASSIM COMO A RUA SERÁ NOSSA.


Nando Antunes.







Parlamentarismo como solução para quem?

Por David Ranieri


E a solução vem na forma de mudança de sistema de governo!
O parlamentarismo, negado pelo povo brasileiro no plebiscito de 1993, voltou a ser discutido nas altas esferas do governo federal.
Proposta vencida mas não esquecida pelos seus defensores, volta agora em meio a crise institucional a ser discutida como solução para os problemas brasileiros.
Seria mesmo uma alternativa viável, ou mais um modo de tirar do povo o poder decisório?
O país já teve o parlamentarismo durante os tempos do Império Brasileiro, com resultados pouco animadores pois a estabilidade dependia da coroa. Em outro momento conturbado de nossa história, a adoção do parlamentarismo se deu como medida limitadora das funções do presidente João Goulart, e deu no que deu, 21 anos de ditadura militar.
E a reforma política tão necessária para aperfeiçoar a representatividade popular no Congresso Nacional, Assembleias Legislativas e Câmaras Municipais, já se mostra como um instrumento de perpetuação no poder dos caciques dos partidos políticos, contrariamente aos interesses populares.
Agora às vésperas da eleição presidencial em 2018 corremos o risco de aprovarem no Congresso Nacional uma alteração no sistema de governo, que viria a beneficiar os apoiadores das tais reformas que oprimem e retiram do povo brasileiro os seus direitos conquistados na Constituição Cidadã de 1988.
Se não for aprovado pelo povo, qualquer que seja o sistema de governo, ilegítimo será!


Lula Livre

A maldade não só aprisionou sem luz em grades sedentas um homem. Aprisionou milhões de corações que no escurecer do cansaço o lamento se ...