O golpe de Estado de 2016: fatores externos

Por Levi Bucalem Ferrari


Durante os debates que antecederam o impedimento da Presidente Dilma Rousseff, a maioria dos que defendiam aquele govrno legítimo utilizavam argumentos de ordem ética, jurídica, de políticas social e assemelhada.  Para estes, não havia motivos suficientes, nem provas que justificassem o ato político-cirúrgico de enorme gravidade no então suposto Estado de Direito brasileiro. Argumentando por essa via, consideravam que sua “razão” os faria vitoriosos; convenceriam população, parlamentares e, em último caso, o Supremo Tribunal Federal. Fazendo pouco caso de Júlio César esqueciam-se da grande máxima imperial: Se vis pacem para bellum. Em outras palavras, praticavam aquela ingenuidade divulgada pelo romantismo e pelos filmes anglo-americanos: vence a guerra quem tem razão.

Alguns poucos destoaram da ilusão preferindo acreditar em Júlio César e em seu descendente direto Niccoló Machiavelli: qualquer disputa política é determinada pela correlação de forças muito mais do que pela razão, mesmo quando a respalda forte argumentação ético-jurídica. Isto considerando, muito antes da efetivação do “impeachment” era possível dar o golpe de Estado como certo.

Outro aspecto digno de nota é o de que nós, brasileiros, temos o costume de olhar demais o próprio umbigo esquecendo-nos do que vai pelo mundo como também de ter uma visão histórica de mais longo prazo. Além de puxar pela memória, busco ler o que se publica lá fora. Enfim, muito me valeu a leitura de Moniz Bandeira, pensador brasileiro que mora na Alemanha e que se dedica hoje mais a questões internacionais. Seus livros A Formação do Império Americano; A segunda Guerra Fria; e, posteriormente, A Desordem Mundial, foram e são valiosos para a compreensão do golpe de 2016, embora não tratem apenas disso.

Bem antes do fatídico agosto de 2016, já se podia saber que EUA, OTAN, e seus mecanismos financeiros e estratégicos queriam “domesticar” o Brasil que, durante os governos de Lula e Dilma, mostravam inequívocos sinais de uma política externa independente, soberana e pouco obediente às potências mencionadas. Além disso, desenvolviam pesquisas próprias e avançadas na área de defesa e conexas; celebravam convênios de cooperação, investiam e comerciavam com países fora do eixo EUA-OTAN. O contexto e a vontade política favoreciam nossos projetos de emancipação tecnológica. E, da mesma forma, nos colocavam como parceiros, e mesmo líderes, junto aos demais países que também buscavam caminhos alternativos.

Internamente, as políticas sociais levadas a efeitos nos últimos anos eram um péssimo exemplo para outros países em desenvolvimento porque havia o perigo de que muitos deles pudessem querer nos imitar. Também essas política criaram uma predisposição de nossas elites sempre amedrontadas e preconceituosas com a ascensão das classes subalternas. Ninguém tomou a casa ou o automóvel de ninguém, mas o fato de os “servos da gleba” terem seu próprio automóvel ou sua casa era o bastante.

Juntados os fatores de política interna e externa mencionados acima e outros dos quais se falará, o Brasil passou a merecer a atenção do Império e potências aliadas que buscaram, em aliança com nossa mídia comprável e nossas elites neocoloniais, realizar a "primavera" brasileira, a exemplo do que foi feito e se estava a fazer em diversos países do mundo, como se estes fossem um conjunto de peças do conhecido jogo de tabuleiro denominado WAR.

Este longo processo – que haveria de caracterizar uma “nova guerra fria” – começara com o desmantelamento da antiga União Soviética e o enfraquecimento e fragmentação de alguns Estados que a compunham. Sob diferentes formas, o processo continuou pela Iugoslávia, Iraque, Afeganistão, Cáucaso, leste europeu, países árabes e agora estaciona na Síria. Não por acaso. Ali, finalmente, Rússia e Irã, seguidos pela China e alguns países árabes, resolveram por um basta nos joguinhos de guerra imperiais. Ou, pelo menos, dificultar a brincadeira.

A atual guerra fria guarda diferenças significativas com a antiga. Aquela era um jogo de peças movidas por potências com poder de fogo quase equivalentes. A nova, mais agressiva, resulta de um largo período de potência única pelos EUA desde o início dos anos 90. Os EUA sentiram-se à vontade para praticar mudanças de regime político (regime changes) em todos os países em que seus interesses econômicos ou estratégicos estivessem em jogo. A OTAN virou um mero instrumento dessa política, além de auxiliar a submeter a Europa.

Destacam-se três formas de atuação imperial embaladas por ideologias e propagandas diferentes. Num caso, como ocorreu no Afeganistão, no Iraque e na Líbia, “justificava-se” a invasão direta, pela difusão ora da falta de democracia, ora da existência ou apoio a grupos terroristas, ora da fabricação de armas de destruição em massa. Outra forma, como ocorreu na Iugoslávia, Ucrânia, países do Cáucaso e alguns países árabes, caracterizava-se pela formação e apoio de grupos rebeldes internos – inclusive falsas ONG´s – que se encarregam da ação direta contra seus governos. A terceira forma se deu em países americanos como Honduras, Paraguai, Argentina e Brasil, onde as regime changes mais se pautaram em influenciar as eleições e/ou apoiar procedimentos parlamentares e jurídicos. Essas três estratégias não são excludentes, havendo em alguns casos – como no das “primaveras árabes” do norte da África – a utilização de mais de uma dessas estratégias.

Por um largo período as guerras e golpes levados a efeito em outros continentes fizeram com que Os EUA, "esquecessem" um pouco da América Latina. Enquanto isso, as potências ocidentais, aproveitando-se da desorganização e enfraquecimento da Rússia, foram picando e trazendo para sua área de influência, alguns países que a compunham. E foram além, tentando comer pela beiradas a própria Federação Russa, como foi - e ainda é - o caso da Ucrânia. À época perguntava-se com certa perplexidade, até quando a Rússia, ex- potência mundial, gigantesca, iria suportar o acelerado avanço do ocidente (entenda-se EUA e OTAN) em seus contornos e beiradas.

Foi ponto nodal nesta fase do processo, o Afeganistão. Chamado ironicamente pelos EUA de "Vietnã da URSS" teve sua guerra de libertação - com a necessária propaganda interna e externa - financiada pelas potências ocidentais e pelas ricas monarquias medievais da Península Arábica.

Propaganda interna porque se tratava de convencer setores mais radicais do Islamismo a não permitir a presença de ateus comunistas em seu “solo sagrado”. Externa, porque o mundo deveria saber que o jugo soviético era nocivo e que a democracia só seria atingida com a tutela do ocidente. Logo depois, ao empolgarem o poder com a ajuda de EUA e OTAN, os Talibãs impõem leis e costumes abusivos aos direitos humanos e, externamente posicionam-se contra o ocidente, seu novo "Satã". A ponto de ajudar o movimento Al Qaida a derrubar as torres gêmeas em Nova Iorque. O tiro saíra pela culatra.

Em seguida, EUA e aliados se voltam para o Oriente Médio e norte da África. Movimentos "democráticos" financiados secretamente pelas potências ocidentais e pelas monarquias da Península Arábica conseguem derrubar os "ditadores" laicos, substituindo-os por fundamentalistas islâmicos. Depois de intensa propaganda (novamente interna e externa) e guerras genocidas em alguns casos, instalam-se governos ultra-radicais e/ou desgovernos no Iraque, Egito, Tunísia e Líbia. Em relatório recente da observadora da Anistia Internacional na Líbia, a autora afirma que o desrespeito aos direitos humanos aumentou violentamente depois da queda de Kadafi, e que ela não tinha sequer a quem denunciar. Com exceção de um raio de poucos quilômetros além da capital, cada região era controlada por chefes tribais que impunham suas prórias leis e eram, em sua maioria rivais entre si.     
Tais arranjos institucionais estão distantes de se constituírem em governos nacionais posto que não são reconhecidos ou respeitados em seu próprio território. Isto também nos permite supor que, ao modo do Afeganistão alguns deles poderão, no futuro, voltar-se contra os próprios "libertadores".

Neste processo, merece atenção a Síria, onde a ação de subjugação e/ou desmembramento de Estados nacionais foi estancada principalmente pelo enérgico apoio russo e iraniano. Digamos que há um impasse ou empate técnico entre potências contra e a favor de Assad. O que a imprensa não nos diz é que o “ditador” sírio respeita (e tem o apoio) das minorias étnicas e religiosas, enquanto que seus opositores mais próximos, as monarquias da Península Arábica, trucidam quaisquer formas de oposição, praticam o assassinato por crença, e restringem de várias formas – e até violência - direitos fundamentais para mulheres.

Já dissemos que, enquanto as potências se ocupavam daqueles países, a América Latina, gozou de alguma tranqüilidade. O Brasil pôde implementar projetos de desenvolvimento econômico e social e consolidar uma política externa independente através do MERCOSUL e da UNASUL. Fez oposição e ajudou a derrubar a ALCA, que muito interessava aos EUA, além de aumentar investimentos e relações comerciais e culturais com Cuba, Angola, Moçambique e outros. Pôde também comprar aviões e submarinos, celebrar consórcios de intercâmbio tecnológico. Essa “desobediência” cresce em importância quando se lembra que nosso país exerce alguma liderança sobre outros países latino-americanos. Lindon Johnson já justificava o apoio ao regime militar no Brasil ao afirmar que, para onde o Brasil for irá o restante da América do Sul.

De todas as iniciativas estratégicas do Brasil a que mais preocupou os EUA foi a de nossa participação no BRICS. Grupo de cooperação econômica, comercial e estratégica entre países em desenvolvimento criado em 2006 e composto inicialmente de Brasil, Rússia, Índia e China ao qual se incorporou a África do Sul em 2011. De certa forma, o BRICS se opunha ao G7 composto pelos países mais ricos do mundo à época de sua criação (EUA, Japão, Alemanha, Inglaterra, França, Itália e Canadá) e, bastante obediente à supremacia do primeiro. Além de projetos de cooperação comercial e tecnológica, o BRICS mais assustava pela de criação de um banco de fomento e a substituição do dólar por nova moeda de transações internacionais, o que muito enfraqueceria o poder do dólar e, consequentemente, dos EUA.

Somados os fatores já elencados, o projeto imperial passou a ser o de derrubar Dilma e colocar algum governante mais dócil aos propósitos estadunidenses. Para tanto, basta atrair, treinar (às vezes pagar) membros do MPF, da PF e do Poder Judiciário, bem como, financiar algumas ONG´s como o Movimento Brasil Livre – MBL, para dar legitimidade ao processo.

Ao lado disso, temos uma burguesia débil, sem projeto próprio, atrelada aos interesses internacionais, que não sabe o que quer e pelo que lutar; e uma classe média, tão horrendamente preconceituosa que não aceita a idéia de que sua empregada doméstica tenha automóvel, mesmo que ninguém tire o seu.

Por fim, os BRICS constituem-se no maior inimigo estratégico e de longo prazo dos EUA. Interessa inviabilizá-lo ou, pelo menos, mantê-lo longe da América Latina. O propósito passa a ser o de confrontar e enfraquecer os BRICS começando pelo membro mais vulnerável e mais próximo geograficamente: o Brasil.

Vale dizer que não interessava apenas tirar Dilma Rousseff do poder; Interessava sua substituição por um governo sem legitimidade, portanto mais dependente e obediente às potências. Interessam hoje as privatizações que vem por ai; o fim dos projetos desenvolvimento autônomo; e dos direitos sociais e trabalhistas que encareciam nossos produtos. Nessa direção atuará o governo Temer-Meirelles. Dessa forma pensam, certamente, os estrategistas anglo-americanos.



(*) Levi Bucalem Ferrari é cientista político e escritor. Foi presidente da UBE – União Brasileira de Escritores.

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