Por Herton Gustavo Gratto
Fim da linha pra você, ex - presidente ladrão
mesmo sem provas
bato panelas
em prol da sua condenação
isso é pra você aprender
que o pobre não tem direito a mais que uma refeição
Fim da linha pra você, metalúrgico boçal
isso é pra você aprender
a nunca mais fazer assistência social com meu dinheiro
e nem se atrever a transformar em engenheira a filha do pedreiro
Fim da linha pra você ex presidente aleijado não é pelo triplex
que você está sendo condenado
é pela sua ousadia
em ajudar o garçom
a virar advogado
em contribuir
pra ascensão do negro favelado
que agora acredita
que pode estudar medicina
sair da miséria
e até conhecer a Capela Sistina
Fim da linha pra você, ex presidente bandido
isso é pra você aprender
que o nordeste deve continuar a ser esquecido
e que saúde e educação
é pra quem pode
e não é que pra quem quer
Fim da linha pra você, semi analfabeto atrevido
graças a sua insensatez
o filho da faxineira
chamou o meu filho de amigo
você está sendo condenado
pela sua falta de noção
de achar que é pobre é gente
que agora pode usar aparelho nos dentes ter casa própria e andar de avião
Fim da linha pra você, ex presidente imundo
isso é pra você parar com essa palhaçada de estimular a minha cozinheira a querer ter carteira assinada, era só o que me faltava,
o proletariado sonhar com qualidade de vida
você devia saber
que essa gente nasceu pra me servir
e não pra servida
mas você é tão inconsequente
não enxerga um palmo diante do nariz
que fez a babá do meu caçula
sonhar que pode estudar pra ser atriz
e fazer aula de inglês
essa pouca vergonha
é resultado
da sua insensatez
da sua irresponsabilidade desmedida
aprenda de uma vez
barriga vazia
e bala perdida
fazem parte do cotidiano
dessa gente bronzeada
foi querer mudar o mundo
se meteu numa enrascada
Fim da linha pra você, ex presidente imbecil
você está sendo condenado
não por ter roubado
porque isso não foi provado
seu erro
foi ser fazer história
ser do tamanho do Brasil
ter oitenta por cento de aprovação popular
acreditar em igualdade
e saber governar.
Herton Gustavo é publicitário, poeta, dramaturgo, roteirista, ator e magro nas horas vagas. Acredita no amor, e no poder das dietas japonesas. É solteiro, desde 1986. Tem no currículo dez textos teatrais inéditos. E onze pés na bunda. Na internet alimenta as Fanpage H.G do Rivotril e Herton Gustavo Ao Quadrado. Mas está sempre com fome.
https://www.facebook.com/hertongustavo
"OS NUS E OS MORTOS"
Por Edwaldo Arantes eeaaaarantes@gmail.com
Talvez a tênue linha que separa a ficção da realidade, a vida da morte, o justo do injusto, o bem do mal, seja mais perceptível e presente em nosso graves e descrentes dias.
Pensando sobre a luta eterna e o confronto das palavras, acordei sem saber se era lucidez ou devaneio, pois me vi transportado aos bancos escolares e vi com perfeição as silhuetas de mestres como Sérgio Roxo, Willian Vanderlei Jorge, Seixas Santos, José Bíscaro, Valentin Carrion e tantos outros monstros sagrados do Direito e da Academia.
Naqueles tempos aprendemos com orgulho e o peito cheio e vivíamos a declamar quase em em coro diversas teses, artigos, jurisprudências, súmulas e todas a literaturas que não brotavam do Google, Site ou Blogs, emergiam das palavras nos livros, com seu cheiro delicioso do papel e seu farfalhar das folhas ao serem viradas sob o brilhar dos olhos.
Hoje, assustado, vejo que já existem petições prontas, apenas cabendo ao dito cujo, preencher a Qualificação Civil, um bruto absurdo, petições brotavam das Remingtons e Olivettis, ao som gostoso dos batuques nas teclas.
Os tempos são outros, com respeito, acato e aprecio:
As pessoas tem medo de mudar, pelo contrário, tenho medo que as coisas não mudem". Agora, petições já prontas, soa bizarro e decadente.
Dias atrás recebi uma propaganda nas redes sociais de uma editora, "Mil e quinhentas , petições para todas as áreas", listando: previdenciárias, cíveis, criminais, tributárias, trabalhistas e tudo o mais, inclusive com as devidas e competentes jurisprudências. Um verdadeiro atentado à pesquisa, conhecimento e o saber jurídico.
Voltando aos tais ditos, me vem a memória as vozes deles, com meus parcos 16 anos, "capiau", chegando de Minas, onde uma cidade lembrava um imenso turbilhão. Nunca havia visto alguém levantar a cabeça, olhar para um estranho aparelho pendurado em um poste de ferro, esperando perplexo e catatônico uma cor para atravessar a rua ou para se deter. Nunca entendi uma das três cores, que passava muito rápida e diziam significar atenção.
Assim aprendemos:
"Todos são iguais perante a Lei, o ônus da prova é de quem acusa, As provas precisam ser robustas e incontestáveis, direito ao contraditório, presunção da inocência, In dubio pro reo, todo poder emana do povo e em seu nome é exercido, ninguém, será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante, são garantidos os direitos à vida, à liberdade, à igualdade, à moradia e à segurança, todo cidadão é livre, e pode recorrer à justiça, quando necessário for, sem ser oprimido, são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, a lei não prejudicará o direito adquirido, o ato jurídico perfeito e a coisa julgada, a lei punirá qualquer discriminação atentatória dos direitos e liberdades fundamentais" e tantos outros que me enchem de saudades, apertam o peito e marejam os olhos.
Hoje, chegando na casa dos quase e imediatos "sessenta", observo com tristeza, melancolia, repugnância, torpor, desprezo e um lampejo de ódio que rasgaram a Carta Magna.
Com humildade vaticino e indago?
Que importância podem ter hoje o CP, CPP, CC, CPC, CLT e outras hoje, bobagens amenas, em absoluto desuso e ao sabor das traças.
Penso que é possível encerrar todos os cursos de ciências jurídicas pelo país, não possuem quaisquer serventias e utilidades, me lembrei imediatamente do João Cabral de Melo Neto, in Morte e vida severina; "e aquele cemitério ali, branco na verde colina, decerto pouco funciona e poucas covas aninha".
Tenho pena das legendárias "Arcadas de São Francisco", chama viva da luta pela liberdade, a busca incansável do justo e do bem comum.
As Arcadas hoje, são apenas uma lápide.
AQUI JAZ!
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