Betinho, o herói mirrado: “A Democracia é incompatível com a miséria.”

Por Dr. José Anézio Palaveri

Viveu, sofreu, deu a vida para os pobres mesmo antes de morrer.
Na altura de sua magreza comeu o pão que o diabo amassou durante seus exílios por este mundo a fora...
Vítima da hemofilia por herança, outra vez vítima do sistema de saúde recebendo transfusões de sangue numa época em que os bancos de sangue eram mal fiscalizados recebeu o vírus da AIDS, não só ele, mas seus dois irmãos, o Henfil e o Francisco.
Idealista, ideologicamente de esquerda, sobreviveu à ditadura militar, sem perder seu idealismo. Criando entidades históricas como o IBASE e depois do exílio, sensibilizado pelos pobres e pela fome de muitos brasileiros, conseguiu reunir um grupo de brasileiros, junto com Dom Mauro, bispo de Santo André, em torno da Ação da Cidadania contra a Fome, contra a Miséria e pela Vida, que nos anos noventa reuniu centenas de pessoas em socorro dos pobres tendo conseguido minorar o sofrimento de centenas de brasileiros, mostrando que o Brasil tem jeito.
Foi militante da Juventude universitária católica, e criador da Ação Popular, um dos movimentos que despertaram brasileiros para mudanças e dizimados pela ação da revolução de 1964, mais conhecida como golpe por sua evolução após 1968.
Para conseguir parceiros e despertar jovens para seus trabalhos dava o exemplo do beija flor combatendo o incêndio na floresta.
Nossos jovens e os atuais professores precisam conhecer esta história. Muitos de nós podemos despertar as lideranças para diminuir o sofrimento do povo. Mas parece que seguimos o caminho inverso com as medidas tomadas por nossos políticos e governantes desta década.
Após despertar muitas lideranças mostrando que há muito que se fazer e muito pode ser feito se formos menos egoístas, Betinho foi definhando sem perder as esperanças, morreu magrinho em 1997 e nestas semanas relembramos sua morte, seus sacrifícios após vinte anos.
Em entrevistas históricas ele diz que se assustou quando o presidente Itamar, em 1993, adotou, como política contra a fome, os princípios que ele criou para a Ação da Cidadania. Ele e Dom Mauro participaram até do Conselho de ministros.
Sua pregação: A ação em cima do prato tinha um apelo simples e mobilizador para as pessoas. E conseguiram diminuir a fome e a mortalidade pela desnutrição no período. Mas o Betinho se foi, deve estar torcendo lá do céu para aqueles que ainda olham para os pobres sem preconceitos...
A fome tem pressa, ele continua gritando...
“Há muita diferença entre o viver e o morrer... Agora é com vocês!”

Parece que ainda estou escutando seu grito... Não é possível que alguém ainda morra de fome em nossos tempos, com tantos progressos tecnológicos e tantas lições aprendidas...!

Dr. José Anézio Palaveri, médico, APLACE




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