DO POVO,
PARA O POVO
Uma parábola
do nosso tempo
Por Atílio José Rossi
Havia uma
terra abençoada pela natureza, onde tudo o que se planta dá, e nela vivia um povo
trabalhador, que produzia, pagava impostos, respeitava as leis. Mas era um povo
muito sofrido, explorado e mantido sem conhecimento, mal informado, sem
cultura, porque interessava aos poderosos daquela terra, que tinham o governo
em suas mãos, mantê-lo na condição de dominado.
As notícias
e informações que chegavam àquele povo, por intermédio dos lacaios do poder,
eram elaboradas e direcionadas para mantê-lo na ignorância, com informações
omitidas, quando interessava, e muitas vezes falsas, de maneira que, repetidas
constantemente, tinham aparência de verdadeiras. O objetivo dos poderosos com
isso era assegurar o domínio, levando o
povo a crer que os que lutavam a seu favor eram seus verdadeiros inimigos.
Não
explicavam porque faltavam as condições básicas para aquele povo, como saúde,
escolas, transporte público e moradia, entre outros, sendo que a arrecadação de
impostos era realizada precisamente para prover tais serviços. Os capitalistas
eram muito astutos e sempre inventavam explicações para justificar as carências:
ora a crise interna, ora a crise internacional, a falta de investimentos por
parte das empresas, juros altos e assim por diante. Só não falavam dos gastos
altíssimos com a máquina pública, das mordomias absurdas, do elevado nível de
corrupção, das licitações fraudulentas, dos grandes desperdícios - isso, sim,
tinha um peso muito grande que recaía sobre a sofrida população.
Havia
aqueles que profetizavam, alertando o povo das injustiças cometidas contra ele,
mas estes eram logo atacados pelos poderosos, perseguidos, caluniados e às
vezes assassinados, como se fossem culpados por toda a desgraça que recaía
sobre a nação. Inventavam tanto contra eles e repetiam tanto as suas mentiras que
elas acabavam parecendo verdades, e grande parcela da população terminava
acreditando e execrando os profetas, que eram os verdadeiros amigos do povo.
A sagacidade
dos capitalistas era tanta que chegavam a dizer - e muitos acreditavam - que
aquela situação injusta era a vontade de Deus, e assim seguiam iludindo as
pessoas, distribuindo migalhas a título de caridade e fraternidade. Com isso
iam enganando a todos como se fossem eles os justos.
Até que, um
dia, alguns homens honestos e amigos do povo, que compreendiam o que se passava
por trás de toda a mentira divulgada pelos poderosos, resolveram reagir. Começaram
então a se reunir para debater a situação, e também a se organizar, na
tentativa de esclarecer a sociedade como um todo e levá-la a reagir diante de
tanta concentração de renda, injustiça, miséria e abandono. E assim foi.
EDUARDO, conhecedor das leis, disse:
- Amigos,
estamos diante de um quadro político e administrativo em que a concentração de
renda está cada vez maior, e nós estamos sendo jogados na miséria a ponto de
começarmos a perder a esperança de dias melhores. A última coisa a perder é a
esperança. Ou nos organizamos para uma ação conjunta ou seremos sempre capachos
do poder econômico. A Constituição Federal garante-nos direitos que foram e
estão sendo retirados pela ganância desmedida dos detentores do capital, que
além disso estão avançando nos patrimônios e reservas estratégicas da Pátria.
ZÉ CARLOS, industriário consciente, afirmou:
- É verdade,
sem esperança e sem organização não vamos a lugar nenhum, só unidos
conseguiremos mudar as coisas.
MANOEL, comerciário, ponderou:
- Também
concordo, mas precisamos saber muito bem o que se passa, tendo em conta que
tudo está cada vez mais caro, o povo ganhando pouco ou desempregado, com necessidades
cada vez maiores. Famílias com pouco ou nada para comer, indo morar em favelas
por não terem casa e não conseguirem pagar aluguel.
ANTONIO, motorista, emendou:
- Só tendo
conhecimento poderemos alertar e convencer os demais. Por exemplo: o transporte
coletivo, que deveria ser subsidiado, é ruim, caro e oferece poucas opções; as
pessoas viajam amontoadas como gado e muitos, por isso, preferem andar de carro.
Isso aumenta os congestionamentos, o
número de acidentes e a poluição do ar, e só beneficia a indústria
automobilística e a indústria do petróleo, que visam o lucro, não no bem estar
da população.
RUSSO, trabalhador do campo, esbravejou:
- Esta
situação não pode continuar, chega de ser explorado de forma desumana. Na roça,
trabalhamos de sol a sol, com um salário de fome e aguentando capatazes. Isso
quando não somos obrigados a comprar no armazém da fazenda, onde tudo é mais caro
e o salário não chega para pagar. Acabamos ficando reféns do fazendeiro. Isso é
escravidão!
ROSÁLIA,
professora, entrou na conversa:
-
A educação, que é a base do desenvolvimento de qualquer país, está uma verdadeira
calamidade. Sem recursos, sem verbas, os salários muito baixos. O professor,
desvalorizado e desprestigiado, é obrigado a lecionar em vários períodos para
sobreviver, ficando sem tempo para aperfeiçoamento, atualização, planejamento
de aulas e para a família. Isso quando não é vítima de violência por parte de
alunos e até de pais despreparados, sem o mínimo de proteção e de direitos.
DR. FERNANDO, médico de posto de saúde, emendou:
-
Na minha área, sou testemunha de que temos cada vez menos condições de atender
à população que depende da saúde pública. Há carência de médicos, pois ninguém mais
quer trabalhar com salários não condizentes. Faltam remédios, equipamentos,
infraestrutura. Há locais de atendimento completamente insalubres, hospitais
superlotados, pacientes amontoados nos corredores. Os pacientes, por sua vez, reclamam
pela demora ou até mesmo pela falta de atendimento, e com razão. Tudo isso
provoca um imenso desgaste na gente, porque não temos condições de dar o
tratamento adequado aos pacientes. Devemos dar um basta nisso! O dinheiro suado
que sai de nossos bolsos na forma de impostos deveria estar sendo usado nessas
coisas, e não em enormes salários e mordomias absurdas para deputados,
senadores, juízes, apadrinhados e sanguessugas de nossos recursos.
HERMÍNIO, economista, aparteou:
-
A verdade, meus amigos, é que o povo está sendo ludibriado por este governo,
totalmente dominado pelos capitalistas
que determinam os rumos da economia. Promovem reformas para retirar os direitos
do povo trabalhador em benefício deles mesmos, empobrecem o povo para ampliar suas
riquezas, aumentando ainda mais a absurda concentração de renda que temos em
nosso país. Eles dizem que estamos em crise, mas a crise foi provocada por eles
mesmos, que deixam de recolher impostos dos mais ricos e perdoam suas dívidas,
em detrimento dos benefícios sociais que são cada vez menores. Para conseguir
isso, compram - com dinheiro público! - parlamentares corruptos que aprovam as leis
de seus interesses. Os banqueiros tem lucros maiores a cada dia, cobrando juros
altíssimos, inclusive do próprio governo, o que aumenta sobremaneira a nossa dívida
interna. Então, o governo cria este cenário de crise e começa a vender o patrimônio
público, o nosso patrimônio, privatizando setores estratégicos, como o
setor energético, e abrindo mão da soberania nacional.
RUSSO interveio e lembrou:
- Os
fazendeiros conseguem grandes financiamentos para o agronegócio porque tem uma
bancada forte no Congresso Nacional, eleita pelo povo que acreditou em suas
promessas, quando na realidade estão a serviço deles mesmos. Estão a cada dia
mais ricos, comprando mais e mais fazendas, mas continuam pagando miséria aos
que trabalham no campo, próximos da escravidão. Desmatam ao seu bel prazer, sem
respeitar as leis ambientais, destroem o meio ambiente que pertence a todos
nós, enquanto o governo fecha os olhos para seus abusos e lhes concede mais e
mais créditos. Muitos invadem terras indígenas e de camponeses que só querem
terra para trabalhar, produzir e sobreviver, chegando mesmo a matar quem luta para
reverter essa situação.
JOÃO LUÍS, ecologista, indignou-se:
- A
ganância desmedida está destruindo o meio ambiente! Áreas enormes estão sendo
desmatadas sem o mínimo critério, matando as nascentes que abastecem os lagos e
rios e provocando o desabastecimento de água que já afeta grande parte da nossa
terra. As áreas verdes estão secando também pela falta de chuvas, porque para
chover precisamos das matas que realizam o ciclo da água. Os peixes estão
sumindo, no futuro não teremos mais abelhas que produzem o mel. Tudo isso para quê? Para plantar cana e
produzir álcool para abastecer os carros, que apesar de ser um combustível não
poluidor provoca, para sua produção, a devastação da natureza onde é plantado. Ou, o que é pior, para plantar soja, trigo e
milho transgênicos, que serão exportados e enriquecerão ainda mais os latifundiários.
Aplicam agrotóxicos muitas vezes de forma criminosa, ultrapassando os limites
definidos pela saúde pública, com a conivência das autoridades e sem nenhuma fiscalização,
envenenando os alimentos que consumimos e também a terra e os rios. Desmatam
ainda grandes áreas para criação de gado, com a maior parte da produção
destinada à exportação, enquanto milhões de famílias de nossa terra ainda
passam fome.
HERMÍNIO tomou novamente a palavra:
- Além de tudo isso, temos uma classe abominável
de homens que usam a religião, usam o nome de Deus para se eleger, e depois
viram as costas para o povo e seus fiéis, fazendo-os de otários. Iludem os pobres
coitados, como se fossem seres iluminados, enviados por Deus; prometem o céu em
troca de apoios, e os menos informados acreditam neles como se eles fossem
justos e santos, mas depois ficam sem céu e sem nada.
MARQUINHOS, que não gostava de política, resolveu falar:
-
Estou de saco cheio, esses políticos estão dando nojo. Não quero me meter em
política porque sou contra tudo isso. Política é para vagabundo, bandido, sem
vergonha; prefiro ficar fora.
Alguém do grupo retrucou, com carinho:
- Marquinhos,
olha só... Mesmo você não querendo, você acaba fazendo política, porque sua
indiferença interessa aos detentores do poder, que continuam fazendo o que querem
sem protestos. Quem cala consente! Com todo respeito, sei que, como nós, você
está indignado. Então vou te contar o que disse Bertolt Brecht em O Analfabeto Político: “O pior
analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos
acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão,
do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio depende das decisões
políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito
dizendo que odeia política. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política
nascem a prostituta, o menor abandonado, o assaltante e o pior de todos os
bandidos, que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e o lacaio das
empresas nacionais e multinacionais.” É para pensar, não acha?
MARQUINHOS, depois de meditar um pouco, respondeu:
-
Vendo por esse lado, acho que você tem razão. Se ficamos calados a situação pode
ficar ainda pior.
EDUARDO então retomou a palavra:
-
Bom, gente, depois de ouvir todos vocês, estou aqui pensando o que podemos
esperar para o futuro de nossa pátria de nossos filhos e netos, a continuar
essa situação de domínio e exploração...
ANTÔNIO completou:
-
Em pouco tempo não teremos como alimentar dignamente os nossos filhos, ficaremos
com a saúde debilitada e dependeremos ainda mais deste governo que pouco se
interessa pelo povo.
ROSÁLIA emendou:
-
E sem educação adequada, que é fundamental, nosso povo ficará cada vez mais carente
do conhecimento e da cultura tão necessários para entender o que se passa.
Estaremos cada vez mais nas mãos dos dominadores! Do jeito que as coisas vão,
ficaremos sem professores e sem educação, por falta de salários decentes,
segurança, estímulo e infraestrutura para o ensino.
DR. FERNANDO reforçou sua tese:
- A
saúde, que já está um caos, ficará cada dia mais deficitária, e em pouco tempo
já não teremos condições tratar nossos pacientes, dada a precariedade de investimentos,
o alto valor dos medicamentos e a falta de seguridade social.
RUSSO também voltou a falar:
- Em
pouco tempo não teremos condições de comprar hortifrutigranjeiros, devido ao
aumento de preços provocados pela dificuldade de cultivar e a falta de apoio a
esse ramo de atividade. Quando não, estaremos nas mãos dos atravessadores.
HERMÍNIO resumiu:
- Enfim,
amigos, a vida vai ficar mais difícil a cada dia, os recursos mais escassos, a
miséria aumentando e trazendo consigo a criminalidade, a violência, a
insegurança, a falta de confiança no próximo e o medo de até sair às ruas.
EDUARDO questionou:
- Precisamos
inventar uma maneira de sair desta situação, uma vez que está em jogo o futuro
e o bem estar de todos. Como fazer isso? Eis a questão. Não temos recursos
financeiros. Para piorar, os meios de comunicação estão nas mãos dos poderosos:
seremos combatidos e endemoniados por eles, que com o poder da mídia conseguem enganar o
povo e até jogá-lo contra nós.
ZÉ CARLOS, então, sugeriu:
-É
verdade, mas existe um bom número de pessoas conscientes que gostariam de
colaborar para mudar a realidade.
DR. FERNANDO, finalmente, propôs:
-
Vejamos... Temos também entidades sérias, podemos fazer um levantamento. Temos
sindicatos fortes e a favor dos trabalhadores, partidos políticos comprometidos
com a população, além de pensadores, artistas, humanistas. Temos analistas
políticos isentos, que podem ajudar na interpretação da situação. Temos advogados,
economistas, sociólogos que, se unidos e aliados à população e aos
trabalhadores organizados, formam uma força imensa capaz de reverter a
situação.
EDUARDO encaminhou a discussão:
- Muito
bem, meus amigos, algumas ideias estão aí e outras com certeza surgirão. O
importante agora é começarmos a fazer contato e promover encontros reunindo
todo esse pessoal. É o primeiro passo para que possamos tomar consciência da
situação como sociedade organizada e unida que devemos ser. Proponho que a
gente distribua algumas tarefas de acordo com a habilidade de cada um de nós,
para podemos “botar a mão na massa”. Que tal se marcamos para uma data bem
próxima a nossa primeira reunião de planejamento? Tragam o máximo de ideias e
sugestões para discutirmos e elegermos as que mais se aplicam à nossa causa. Vamos à luta, e vamos organizados! Unidos,
venceremos!
Assim
foi feito...
E
foi assim que, depois de algum tempo de preparo e de ação, aquela sociedade - antes
marginalizada e condenada à ignorância pelos poderosos de plantão -
transformou-se em um grupo mobilizado, formando um verdadeiro exército.
Juntos,
eles ocuparam as ruas e praças públicas para denunciar as injustiças, as falcatruas
e os corruptos, e conseguiram que eles não fossem mais eleitos, elegendo em seu
lugar representantes realmente comprometidos com o povo.
E
foi assim que aquela gente, antes refém de um governo que tirava dos pobres
para dar aos ricos, mudou o rumo das coisas e garantiu um futuro mais justo e
pacífico para toda a sociedade.
Juntos,
criaram meios de comunicação transparentes, para manter os cidadãos informados,
esclarecidos e em constante vigilância e questionamento em relação ao poder.
Juntos,
desenvolveram soluções para os problemas que se apresentavam à sociedade, de
maneira a evoluir política e socialmente, com o engajamento perene, sadio e
igualitário de todos.
Juntos,
decidiram que a cada período o governo deveria ser renovado, com a eleição ou
reeleição de seus governantes, que assim passavam pelo julgamento periódico da
sociedade.
Juntos,
os cidadãos daquela terra abençoada pela natureza tomaram, enfim, as rédeas de
seu país e construíram uma verdadeira democracia, um governo do povo e para o
povo.
07/11/2017 - Colaboradoras:-
Anamaria Rossi -
Norien Marly R. Rossi
