Quando a gente vem pra escola e recebe educação, a coisa mais importante que a gente recebe é a consciência da nossa identidade. Com a educação, podemos perceber quem somos de verdade.
Por que é importante conhecer a história?
Porque quando vocês nasceram, o mundo já existia, nossos pais já haviam trabalhado muito, o Brasil já era um país grande – o quinto maior país do mundo em extensão territorial, nosso time de futebol já havia vencido cinco Copas do Mundo, nossos três pilotos mais importantes de Fórmula 1 já tinham sido campeões de automobilismo. E a escravidão já tinha sido abolida.
Sabem por que é importante conhecer a história?
Por exemplo, quem foi Napoleão?
Vocês devem ter visto pela televisão e pela Internet que neste ano se completam 200 anos da Batalha de Waterloo, uma luta na Bélgica que derrotou Napoleão Bonaparte. E quem foi Napoleão? Vocês sabem?
Pois foi um general francês, baixinho, muito bravo e briguento. E que importância esse homenzinho teve para o nosso país?
Bem, mais ou menos em 1805, ele reuniu um enorme exército e resolveu que queria conquistar o mundo inteiro. Saiu conquistando muitos países na Europa. Quando estava perto de atacar Portugal, o príncipe de lá, que se chamava Dom João, ficou com muito medo, juntou a família, encheu treze caravelas com as suas coisas e sua corte e veio correndo para o Brasil. Portugal, na época era dono do Brasil. Lembram que foi Portugal que descobriu o Brasil em 1500, pelo capitão Pedro Álvares Cabral?
O Brasil era um país grande e selvagem, e pouca gente morava aqui. O príncipe Dom João é que mandava em Portugal e no Brasil, porque a rainha, mãe dele, estava pirada e não conseguia tomar decisão alguma.
Dom João chegou ao Brasil, no ano de 1808, com mais ou menos duas mil pessoas e foi morar no Rio de Janeiro, e por isso o Rio se transformou na nossa primeira capital.
Como era um homem inteligente, Dom João criou uma biblioteca para que as pessoas pudessem consultar livros e assim aprenderem sempre mais. Foi a Biblioteca Nacional, que ainda existe e é muito importante. Logo depois criou a Imprensa Oficial do Estado, para que o Brasil pudesse imprimir livros, jornais, e documentos importantes como leis e decretos. Também criou os Correios, para que as pessoas pudessem mandar e receber correspondências e assim ter notícias de suas famílias que ficaram em Portugal. Dom João criou também o Banco do Brasil. E também criou a Casa da Moeda, para produzir o dinheiro que o brasileiro passou a usar, e que naquela época já se chamava real. Viram que príncipe inteligente? Foi por causa dele que o Brasil, que era um país grande e selvagem, começou a se modernizar.
O Brasil ficou tão moderno que surgiram até escritores.
Um desses escritores era um homem muito interessante. Ele se chamava Joaquim Maria, como eu. Mas ele ficou conhecido pelo sobrenome, que era Machado de Assis.
Mas o Brasil, nessa época, ainda tinha um problema. Um problema muito sério: ainda havia a escravidão. Tribos de negros eram trazidos da África, principalmente de Angola, para trabalhar de graça para os donos de terras aqui no Brasil. E sofriam muito, porque apanhavam se não trabalhassem direito, ganhavam pouca comida. Aliás, quando os fazendeiros matavam um boi e um porco para fazer churrasco, os negros não podiam participar. Então, o que eles faziam? Pegavam o que sobrava do boi e do porco e que não servia para fazer churrasco, isto é, o fígado, os rins, os pés, as orelhas, cozinhavam tudo com feijão e assim nasceu a feijoada...
Mas, aos poucos, os negros foram conseguindo se libertar, alguns lutando, outros fugindo e se escondendo no mato, onde criavam acampamentos que se chamavam quilombos. Mas muitos negros foram libertados pelos próprios patrões, que ficavam com pena do sofrimento deles e que tinham consciência do respeito que a gente deve ter com as pessoas. Aprenderam a respeitar os outros porque receberam educação na escola. E é esse o papel mais importante da escola, sabiam disso? Ensinar que todo mundo deve ser respeitado, mesmo sendo diferentes.
Pois eu estava contando sobre Machado de Assis.
Ele era negro, e não era escravo porque a mãe dele tinha sido libertada pelo patrão dela. Mas era pobre. A mão era lavadeira e ele ajudava nas despesas da casa vendendo cocada na rua. Machado de Assis também era gago e, por ter vergonha disso, era muito tímido. Mas era muito inteligente e muito determinado. Morava no Rio de Janeiro e ia todos os dias até a Biblioteca Nacional e lia muito livros. E não perdia um só dia de aula. Foi aprendendo tanto que em pouco tempo sabia muito bem a língua portuguesa e também o francês. Conseguiu emprego de ajudante numa gráfica e não demorou muito para que o chefe dele percebesse que ele sabia escrever muito bem. E deu a ele a chance de escrever para o jornal. Começou a fazer poesias, depois começou a escrever crônicas. As pessoas gostavam muito do que ele escrevia e ele começou a ficar famoso.
Acontece que ainda havia poucas escolas no Brasil. Por isso, havia muita gente analfabeta. Então, o costume da época era este: logo depois do jantar, a família se reunia na sala e aquela pessoa da casa que sabia lera pegava o jornal e lia em voz alta para todo mundo. Não era um costume bacana?
Foi desse jeito que Machado de Assis ficou conhecido no Brasil inteiro. Porque todo mundo conhecia o que ele escrevia.
E o que ele escrevia? Histórias sobre os sentimentos das pessoas. Falava de amor, de tristezas, de sonhos e de esperanças. Ele sabia escrever sobre tudo o que as pessoas sentiam no coração. E por isso ele fez muito sucesso. Porque todo mundo sente as mesmas coisas, mesmo que sejam diferentes. Os ricos amam seus pais; os pobres também. Os mais velhos sentem raiva, às vezes; os mais jovens também. Todo mundo trabalha. Todo mundo quer se divertir. Todo mundo fica doente de vez em quando. E todo mundo morre, porque morrer faz parte da vida. Quer dizer: Machado de Assis falava de sentimentos e de acontecimentos que existem para todas as pessoas, não importando se são jovens, velhas, ricas, pobres, brancas, negras.
Machado de Assis até se esquecia de que era negro, porque a cor da pele não tinha importância para ele. Aliás, a cor da pele não deve ter importância para ninguém. Só para os tolos.
E o que é ser negro?
Do ponto de vista da humanidade, não quer dizer absolutamente nada. Nós todos somos pessoas, diversas, diferentes, viventes, dotadas das mesmas qualidades e, por que não?, dos mesmos defeitos.
Do ponto de vista da história, os negros carregam uma carga cultural específica, por causa da escravidão que sofreram. Chegaram ao Brasil trazidos à força, com um passado diferente, outros costumes, outros desafios. Tiveram que trabalhar demais, sem liberdade. Por isso a história dos negros é diferente, mas na essência são pessoas como todas as outras, com os mesmos sonhos e ideais. Simples assim.
Pois Machado de Assis foi negro. E o maior escritor da língua brasileira.
Foi tão importante que o imperador Dom Pedro II contratou os serviços dele para escrever mais sobre o Brasil. É que o Brasil tinha ficado independente de Portugal, mas não bastava isso. O Brasil precisava ficar independente também na literatura, e escrever a sua própria história, em vez de apenas ter livros feitos pelos portugueses. Que rei sábio, hein? Deu apoio aos escritores brasileiros.
Mas havia outros escritores que se preocupavam com a situação dos negros que continuavam escravos.
Um deles se chamava Luiz Gama. Também era negro. Nasceu em 1830, nove anos antes de Machado de Assis. Nasceu na Bahia. Era filho de um fidalgo português e de Luiza Mahin, negra livre que participou de diversas insurreições de escravos. Teve uma vida boa até os dez anos de idade. Brincava, nadava na praia, não tinha preocupações. Mas não ia para a escola, porque na Bahia ainda não havia escola para todo mundo.
Mas sua história de vida foi bem diferente. Enquanto Machado de Assis teve a sorte de ser criado por uma família pobre, mas livre e que tinha grande apreço pela educação, Luiz Gama, aos 10 anos de idade, foi vendido como escravo pelo pai para pagar uma dívida de jogo. Foi comprado pelo alferes Antônio Pereira Cardoso (alferes era como eram chamados, na época, os tenentes do exército). Luiz Gama foi levado para Rio de Janeiro, e depois para diversas cidades de São Paulo, até ser levado ao município de Lorena, onde o dono dele tinha uma fazenda de café.
Trabalhava muito, plantando, colhendo, limpando mato. Quando tinha dezessete anos, um estudante ficou hospedado na fazenda. Vendo a inteligência de Luiz Gama, resolveu ensinar o moço a ler e a escrever. Um ano depois, Luiz Gama fugiu para São Paulo e alistou-se na Força Pública da Província de São Paulo. Chegou a ter a patente de cabo e permaneceu até o ano de 1854 quando foi obrigado a dar baixa por responder ao insulto de um oficial.
Em 1850 casou-se e tentou frequentar o Curso de Direito do Largo do São Francisco. Por ser negro, enfrentou a hostilidade de professores e alunos, mas persistiu como ouvinte das aulas. Não concluiu o curso, mas o conhecimento adquirido permitiu que atuasse na defesa jurídica de negros escravos.
Na década de 1860 destacou-se como jornalista e colaborador de diversos jornais. Escrevia poemas ridicularizando os poderosos de seu tempo. Hoje, é reconhecido como um dos grandes poetas do romantismo brasileiro.
Luiz Gama foi um dos maiores líderes abolicionistas do Brasil. Sempre esteve envolvido nos movimentos contra a escravidão e a favor da liberdade dos negros. Em 1869, fundou com Rui Barbosa o Jornal Radical Paulistano. Em 1880 foi líder da Mocidade Abolicionista e Republicana.
Um dia, escreveu isto:
Nos Tribunais, como falava muito bem e conhecia as leis, conseguiu libertar mais de 500 escravos. Nessa época, um dos preconceitos racistas mais difundidos dizia (como ainda hoje diz) respeito ao suposto odor que proviria dos negros. Por isso, no Brasil do século XIX, uma das gracinhas mais comuns era chamar os negros de “bodes”.
Vamos ver alguns pequenos trechos do seu poema “Quem sou eu?” (também conhecido como “Bodarrada”)
Quem sou eu? que importa quem?
Sou um trovador proscrito,
Que trago na fronte escrito
Esta palavra — Ninguém! —
Amo o pobre, deixo o rico,
Vivo como o Tico-tico;
Não me envolvo em torvelinho,
Vivo só no meu cantinho:
Da grandeza sempre longe,
Como vive o pobre monge.
Tenho mui poucos amigos,
Porém bons, que são antigos,
Fujo sempre à hipocrisia,
À sandice, à fidalguia;
Das manadas de Barões.
Mas eu sempre vigiando
Nessa súcia vou malhando
De tratantes, bem ou mal
Com semblante festival.
Dou de rijo no pedante
De pílulas fabricante,
Que blasona arte divina,
Com sulfatos de quinina,
Trabusanas, xaropadas,
E mil outras patacoadas,
Que, sem pingo de rubor,
Diz a todos, que é DOUTOR!
Não tolero o magistrado,
Que do brio descuidado,
Vende a lei, trai a justiça
— Faz a todos injustiça —
Com rigor deprime o pobre
Presta abrigo ao rico, ao nobre,
E só acha horrendo crime
No mendigo, que deprime.
- Neste dou com dupla força,
Té que a manha perca ou torça.
Fujo às léguas do lojista,
Do beato e do sacrista
Crocodilos disfarçados,
Que se fazem muito honrados,
Mas que, tendo ocasião,
Mais ferozes que o Leão.
O que sou, e como penso,
Aqui vai com todo o senso,
Posto que já veja irados
Muitos lorpas enfunados,
Vomitando maldições,
Contra as minhas reflexões.
Eu bem sei que sou qual grilo
De maçante e mau estilo;
E que os homens poderosos
Desta arenga receosos
Hão de chamar-me — tarelo,
Bode, negro, Mongibelo;
Porém eu que não me abalo,
Vou tangendo o meu badalo
Com repique impertinente,
Pondo a trote muita gente.
Se negro sou, ou sou bode
Pouco importa. O que isto pode?
Bodes há de toda a casta,
Pois que a espécie é muito vasta.
Há cinzentos, há rajados,
Baios, pampas e malhados,
Bodes negros, bodes brancos,
E, sejamos todos francos,
Uns plebeus, e outros nobres,
Bodes ricos, bodes pobres,
Bodes sábios, importantes,
E também alguns tratantes
Aqui, nesta boa terra
Marram todos, tudo berra;
Nobres Condes e Duquesas,
Ricas Damas e Marquesas,
Deputados, senadores,
Gentis-homens, veadores;
Belas Damas emproadas,
De nobreza empatufadas;
Repimpados principotes,
Orgulhosos fidalgotes,
Frades, Bispos, Cardeais,
Fanfarrões imperiais,
Gentes pobres, nobres gentes
Em todos há meus parentes.
Entre a brava militança
Fulge e brilha alta bodança;
Guardas, Cabos, Furriéis,
Brigadeiros, Coronéis,
Destemidos Marechais,
Rutilantes Generais,
Capitães-de-mar-e-guerra,
— Tudo marra, tudo berra —
Na suprema eternidade,
Onde habita a Divindade,
Bodes há santificados,
Que por nós são adorados.
Entre o coro dos Anjinhos
Também há muitos bodinhos.
O amante de Siringa
Tinha pêlo e má catinga;
O deus Midas, pelas contas,
Na cabeça tinha pontas;
Zeus quando foi menino,
Chupitou leite caprino;
E, segundo o antigo mito,
Também Fauno foi cabrito.
Nos domínios de Plutão,
Guarda um bode o Alcorão;
Nos lundus e nas modinhas
São cantadas as bodinhas:
Pois se todos têm rabicho,
Para que tanto capricho?
Haja paz, haja alegria,
Folgue e brinque a bodaria;
Cesse pois a matinada,
Porque tudo é bodarrada!
Luiz Gama faleceu em 24 de agosto de 1882 e foi sepultado no Cemitério da Consolação, na presença de 3.000 pessoas numa São Paulo de 40.000 habitantes.
Apenas para tratar das aproximações que existem entre as literaturas de Machado de Assis e de Luiz Gama, devo dizer que a literatura PODE ser engajada, mas não precisa ser engajada.
A literatura deve ser livre, como o homem deve ser livre.
Machado de Assis falou dos grandes dramas da psicologia humana. Luiz Gama falou dos grandes dramas da sociologia humana. Mas ambos trataram da liberdade.
Pois é isso. Cada um produziu a literatura que preferiu, que escolheu. Cada um atendeu a um chamado diferente.
Cada um com o seu pendor, cada um com o seu valor, e ambos com o mesmo amor.
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