Será que ainda “se faz um país com homens e livros”?

Por Marcelo Nocelli

A célebre frase atribuída a Monteiro Lobato – “Um país se faz com homens e livros” - ainda faz algum sentido para nós, brasileiros?  
Diante dos números das últimas pesquisas creio que não. Segundo as apurações, o brasileiro lê cada vez menos. Atualmente apenas 44% da população brasileira têm o hábito da leitura. Porém, mais assustador ainda, foi quando vi que destes, 15% não se lembrava o título do último livro que leu... Esse detalhe já coloca em xeque o “hábito da leitura”. Assustador também é saber que, ainda dentro destes 44% que responderam manter o hábito da leitura, outros 12% afirmaram que não só o último, mas a leitura constante é, única e exclusivamente, a bíblia. (Talvez seja necessário deixar claro que não tenho nada contra quem lê a bíblia), mas a minha constatação, então, é a de que apenas 17% têm realmente o hábito da leitura. A leitura em sua essência, múltipla, com propósito na busca de repertório, conhecimento, fluência na língua, vocabulário, visão de mundo, posicionamento político e social, referências, história, geografia, ciências, além da diversão também, é claro, e todos os milhares de benefícios que os livros podem trazer.
Outra frase excelente é a do poeta Mário Quintana: “Livros não mudam o mundo. Quem muda o mundo são as pessoas. Os livros só mudam as pessoas. ”
Somando essas duas máximas da literatura brasileira, a de Monteiro Lobato – escritor que publicou dezenas de livros adultos e que foi também editor, entre tantas atividades literárias que vão além do fantástico “Sítio do Pica Pau Amarelo”, conhecido pela maioria do povo brasileiro através da televisão, e não propriamente dos livros – com a de Quintana, me pergunto: será por isso, pela falta de leitura e contato com os livros e a literatura que o mundo não tem mudado? Que o país tem estancado? Ou melhor, tem mudado sim, mas para pior... Será por isso que estamos passando por esse processo de emburrecimento coletivo?
A jornalista Eliane Brum, escreveu recentemente que: “debater com seriedade a burrice nacional é mais urgente do que discutir a crise econômica e o baixo crescimento do país. A burrice está na raiz da crise política mais ampla. A burrice corrompe a vida; a privada e a pública. Dia após dia.”  
É exatamente isso que vemos em tempos de redes sociais, leituras banais, frases curtas e citações literárias, na maioria das vezes equivocadas, num mundo virtual de valores duvidosos e vida efêmera, sem leitura consistente, onde os mais tenebrosos absurdos amorosos são atribuídos à Clarice Lispector, frases de efeito e autoajuda são repetidas e compartilhadas como mantras, Simone de Beauvoir virou “baranga” e Bolsonaro mito, enquanto coraçõezinhos pululam na tela.
Confesso que não posso afirmar que a efemeridade das coisas, a exposição exagerada, a internet e as redes sociais (que também são recheadas de coisas boas) ajudaram mesmo a propagar a burrice, ou se só trouxeram à tona o que estava escondido mundo afora, dando voz a quem pouco falava, a quem não tinha coragem ou canal para falar... Agora, além dos benefícios, que sim, existem, as redes sociais jogaram à luz dos monitores, um monte de falácias das mais variadas... Outra escritora brasileira, a filósofa Marcia Tiburi, em seu livro “Como conversar com um fascista”, escreveu: “Se levarmos em conta que falar qualquer coisa está muito fácil, que falamos em excesso e falamos coisas desnecessárias, um novo consumismo emerge entre nós, o consumismo da linguagem.
O problema é que ele produz, como qualquer consumismo, muito lixo. E o problema de qualquer lixo é que ele não retorna à natureza como se nada tivesse acontecido. Ele altera profundamente nossas vidas em um sentido físico e mental. O que se come, o que se vê, o que se ouve, numa palavra, o que se introjeta, vira corpo, se torna existência”. E onde está sendo despejado esse lixo todo? Na internet, nas redes sociais, ao alcance de nossas crianças, o futuro do país.
O que permanecerá na memória da nossa população atual, e o que, realmente, influenciará a educação das nossas sociedades no futuro se não haverá mais livros nas estantes? Se quem cita Clarice Lispector na internet nunca leu um livro dela?
Se realmente livros mudam as pessoas e as pessoas mudam o mundo, se, realmente, um país se faz com homens e livros, está explicado porque o Brasil anda tão mal e porque nada muda por aqui, além das moscas...

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