HENRIQUE! UM CHOPP NO CÉU


Por Edwaldo Arantes – ee.arantes@uol.com.br

Sempre me lembrarei do sorriso adentrando o Instituto do Livro, direto para a minha mesa, em passos tranqüilos e iluminando o árduo dia com sua presença e sua pergunta e marca pessoal:
Edwaldo, me conte alguma coisa boa.

Assumia o seu cantinho com sua presença amiga, quando lá pelas 12:00, 13:00, rumávamos para o nossos almoços, Cantina 605, Pinguim, Boi Bom, Cupim do Paulim e, recentemente, no Pitéus do querido Rubinho.
No final da tarde, com aquele sorriso arrebatador de quem possui o charme e o destino dos justos, com todo o seu poder de convencer e encantar, totalmente natural, sem pieguices ou como aquele chato de plantão que teima em insistir, persistir, pressionar ou ser inconveniente.
Nada disso, eu ficava esperando ansioso o momento exato em quem ele erguia os olhos do computador, virava-se com todas aquelas características que jorravam dele:
Bonança, sossego, paz, equilíbrio, calmaria, remanso e serenidade, com um sorriso aberto, dizia com a voz em calmaria presente:
"Vamos ligar para o Ewaldinho Arantes e pendurarmos uns chopinhos no ...

Não conto o Santo, só os milagres.
Uma alegria eterna. Um cara que nunca tinha lágrimas e caretas. Um homem menino, livre e cristalino, coisa de quem não possui pecados e nunca fez mal a ninguém. Todo mundo para ele era bom. Fomos ao Rio abraçarmos Nando Antunes, eu, Bafudo doente, a pedido dele em seu absoluto despojamento , entreguei a eterna camisa do Magrão ao Nando.
Era um arquipélago de amigos, dos imortais; Deonísio da Silva, Anna de Hollanda, Joaquim Botelho, Levi Bucalem Ferrari, Nando Antunes, Sérgio Roxo, Reginaldo Arthus, e tantos outros monstros sagrados e, também de nós, pobres mortais.
Era costume, antes dos chopinhos , migrarmos para a Cava do Bosque, Secretaria Municipal dos Esportes, iniciando umas conversas, falando de tudo e de nada com os amigos queridos, Guerra, Dado Batista, Dezordo e quem mais viesse.

Minha homenagem e gratidão passam pela pena do Poeta:
Irene no Céu
Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor.
Imagino Irene entrando no céu:
- Licença, meu branco!
E São Pedro bonachão:
- Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.

Manuel Bandeira BANDEIRA, M. Estrela da Manhã, 1936.

"E a saudade! ohhhhhhhhhhhhh”.



O tempo não perdoa!

Por David Ranieri


Fazer o quê, dirão uns, afinal consumado está, nada mais resta-nos a fazer a não ser acompanhar o desmonte de tudo que já foi o motor de propulsão para a inclusão social do nosso povo.

Fazer o quê, já que a situação não afeta os abastados que irritados no passado recente repicavam suas panelas furiosamente em protesto contra o que julgavam ser o pior da construção política brasileira.
Fazer o quê, enquanto apaticamente caminham cabisbaixos os que perderam as conquistas do passado, em nome de um progresso que irá lhes tirar a dignidade alcançada.
Fazer o quê, se lá na casa das leis, os que lá estão não medem as consequências nefastas de seus atos e tão somente almejam o aumento de seus ganhos.
Fazer o quê, se a soberania não tem significado e a sua existência deixou de ser um legado.
Fazer o quê, fingir que tudo está certo e que nada está a nos atingir mesmo que saibamos que estão a nos roubar.
Fazer o quê, caminhar sem paradeiro a procura de emprego, saúde ou segurança, e se esconder da própria miséria que nos rodeia em castelos de areia tão frágeis quanto a justiça social.
Fazer o quê, se creem nas mentiras contadas mesmo que as malas cheias de dinheiro e as denuncias digam o contrário.
Fazer o quê, se em nome de pagarem as dívidas criam novas para salvar suas peles e enchem os bolsos dos aliados deixando para o futuro o peso para os pobres pagarem.
Fazer o quê, se a canga apesar de pesada foi vestida e está suportada por todos.
Fazer o quê, se o que parece errado travestido de certo está pelos togados que julgam, mesmo que nosso entendimento seja contrário?
E fazer o quê, já que dizem que tudo é feito para a vida melhorar no futuro por vir.
E fazer o quê, se o que virá não for o que disseram que seria. 
O tempo não perdoa!





LOCALIZEI UMA CONSTITUIÇÃO NO LIXO!

Por Edwaldo Arantes

Fico pensando humildemente "cá com meus botões" se houve alguma mudança substancial e determinante no Código Penal e também no Código de Processo Penal. 
Rezam princípios cristalinos e fundamentais: "In dúbio pro reo", expressão latina que literalmente significa, na dúvida, a favor do réu. 
O princípio jurídico da Presunção da Inocência, que em caso de indecisão, hesitação, indeterminação, ambigüidade e confusão, gerando descrenças, favorece o réu. 
No mesmo diapasão era claro e notório que as provas devem ser robustas e incontestáveis, sua insuficiência favorece o réu, cabendo ao Autor de uma Ação provar os fatos constitutivos de seu direito. 
Caminhamos para o “Princípio do Contraditório e da Ampla Defesa”, derivado da frase latina, “Audi alteram partem ou audiatur et altera pars”, que significa, “ouvir o outro lado” ou “deixar o outro lado ser ouvido bem”. 
Outra expressão que virou adágio popular, "Todos são iguais perante a Lei", dito hoje, totalmente em desuso e sem absolutamente quaisquer serventias ou utilidades. 
Vivemos mais que uma inversão e sim uma verdadeira subversão de valores e das garantias individuais, em absoluto desrespeito aos Direitos Fundamentais e, principalmente, um abuso e menosprezo pela nossa "Carta Magna". 
Tempos sombrios, densos, opacos e temerosos, com as instituições em decrepitudes, inoperâncias, despidas de créditos junto a sociedade. 
Hoje vivemos uma forma de governo onde exerce-se o poder sem respeitar a democracia, governando de acordo com suas vontades e com os grupos políticos que lhes pertencem e sustentem, em total desrespeito às leis, normas e condutas que norteiam a ordem democrática. 
Assustado, fui sacudido pela lembrança e, absolutamente sem querer, transportado aos nefastos e sangrentos "anos de chumbo", que imperava um governo déspota, com seu absolutismo, autocracia e tirania, onde um certo senhor, travestido de Chefe da Nação, vociferava: "eu prendo e arrebento", “prefiro cheiro de cavalo do que de povo” e outras barbaridades e imbecilidades. 
Portanto, LIBERDADE, “grau de independência legitimo que um cidadão, um povo ou uma nação elege como valor supremo e ideal. 


Edwaldo Arantes – ee.arantes@uol.com.br

DA ESTUPIDEZ HUMANA


Por Atílio Jose Rossi


O ser humano a cada dia se dá menos conta de sua finitude. Vive como se nunca fosse deixar este mundo.
Levado pela necessidade, sem sentido, de TER cada vez mais, criada pela força da propaganda através de todos meios de comunicação, deixa de lado valores fundamentais ao seu bem estar e de todos como: o amor, a solidariedade, a amizade verdadeira e duradoura, a busca do conhecimento que eleva o espírito, o reconhecimento das necessidade do outro e da sociedade como um todo, importantes à uma convivência pacífica.
Em razão da cultura pela acumulação de bens e riquezas, quase tudo prepara o indivíduo para um pragmatismo desenfreado na busca do ganho fácil, do lucro desmedido, do enriquecimento não importando os meios utilizados, criando uma disparidade na sociedade, notada sobremaneira pela concentração de renda.
Não percebe que com isso esta criando marginalidade, aparthaids, preconceitos, homofobias, coisas que levam à instabilidade social e em consequência à criminalidade, violência, insegurança e uma vida de angústia social da qual se torna a própria vítima.
Não entende que a vida passa  e de pouco adianta acumular riquezas, bens, quase sempre desnecesrios à felicidade uma vez que tem uma vida curta para se perder com coisas que na verdade vão ficar aqui na Terra. Vale aqui uma referência bíblica; "... demolirei os meus celeiros e os farei maiores e neles recolherei todos meus bens. E direi a minha alma: Ò alma tu tens muitos bens e depósito para largos anos, come bebe regala-te.  Mas Deus disse-lhe: Néscio, esta noite te virão demandar tua alma, e as coisas que juntastes, para quem servirão? (Lucas - 12  - 18 a 20)



                                 DA ESTUPIDEZ HUMANA
                         
Por Atílio Jose Rossi

O ser humano a cada dia se dá menos conta de sua finitude. Vive como se nunca fosse deixar este mundo.
Levado pela necessidade, sem sentido, de TER cada vez mais, criada pela força da propaganda através de todos meios de comunicação, deixa de lado valores fundamentais ao seu bem estar e de todos como: o amor, a solidariedade, a amizade verdadeira e duradoura, a busca do conhecimento que eleva o espírito, o reconhecimento das necessidade do outro e da sociedade como um todo, importan-
tes à uma convivência pacífica.
Em razão da cultura pela acumulação de bens e riquezas, quase tudo prepara o indivíduo para um
pragmatismo desenfreado na busca do ganho fácil, do lucro desmedido, do enriquecimento não im-
portando os meios utilizados, criando uma disparidade na sociedade, notada sobremaneira pela con-
centração de renda.
Não percebe que com isso esta criando marginalidade, aparthaids, preconceitos, homofobias, coisas
que levam à instabilidade social e em consequência à criminalidade, violência, insegurança e uma
vida de angústia social da qual se torna a própria vítima.
Não entende que a vida passa  e de pouco adianta acumular riquezas, bens, quase sempre desneces-
rios à felicidade uma vez que tem uma vida curta para se perder com coisas que na verdade vão ficar aqui na Terra. Vale aqui uma referência bíblica; "... demolirei os meus celeiros e os farei maiores e
neles recolherei todos meus bens. E direi a minha alma: Ò alma tu tens muitos bens e depósito para
largos anos, come bebe regala-te.  Mas Deus disse-lhe: Néscio, esta noite te virão demandar tua alma,
e as coisas que juntastes, para quem servirão? (Lucas - 12  - 18 a 20)








Cifra$, cifra$ e cifroe$.

Por David Ranieri

Cifra$ tão distantes do nosso alcance, entram no nosso cotidiano.
Em um único local, são 55 milhões em notas! Nem banco tem esta quantia toda reunida em seu cofre. Mas Geddel tem! Em depoimentos novamente cifras; seriam 300 milhões distribuídos de diversas formas à diversas pessoas e por interesses comuns.
Aqui pelas nossas bandas, faz um ano viemos a conhecer algumas das cifras que levaram secretários, funcionários e a prefeita para a prisão: 200 milhões! E não para ai, em volta da maior metrópole do hemisfério sul são 1,3 bilhões de desvio das obras do Rodoanel, número mais do que expressivo comparado aos já aqui citados. E não são poucos os casos existentes no passado e no presente envolvendo cifras enormes.
Prefeituras pequenas, médias e grandes, Estados, Autarquias, Empresas e também no Governo Federal.
Esquemas de ambulância, dos sangue-sugas, dos anões do orçamento, da pasta rosa, e tantos nomes promissores que aos poucos entraram para o livro dos contos brasileiros.
Quantos enriqueceram às custas da miséria do povo brasileiro, desviando recursos da saúde, da educação, do saneamento, da habitação e da segurança?
Cifras que enchem os olhos e ofendem a dignidade de milhões de brasileiros que sofrem nas filas da saúde, do desemprego, sem moradia, sem escola, e com péssimas condições de vida.
É tanto dinheiro que não há como somar o que já se desviou neste país em todos os esquemas descobertos. Quiçá o que não se sabe?
Deitado eternamente em berço esplêndido, ao som do mar e à luz do céu profundo, gozam a boa vida os beneficiados com a miséria de milhões.
Até quando?


Suplicas de Babel, o carainho!

Por David Ranieri

Liberdade, liberdade, há malas por trás de mim.
Quanto devo por ter dito que a mala seria mais importante que tudo que na vida tive.
Guardo no fundo, tudo que tenho, produto das minhas conquistas  em ti e nada mais do que a mala.
Incompleto, me sinto longe de ti  e,   preocupado com as circunstâncias por tê-la e outros a exporem quando somente eu fazia de ti meu sustento, meu alento, meu deposito infinito. Cheia das virtudes que perdi na vida, a mala sempre foi para mim mais do que sustento.
Insensíveis adentraram nosso esconderijo expondo sua beleza rara que poucos podem ter.
Somente em ti poderia haver tanta riqueza, de me tirar o sono só de pensar em perdê-la.
Somente temer a mala? 
Como é bom amá-la!





51 milhões!!!!

A Pátria, a Mãe Gentil, o setembro e a mala.


Por Edwaldo Arantes


A vida sempre nos reserva momentos inesquecíveis, só podem ser vividos em uma mesa regada de prosa, comidinhas e muito álcool, não existem verdades sem o torpor.
Em uma imensidão de palavras, gestos, opiniões e bobagens, encontrava-me ao lado de um casal muito amado, David Ranieri Bulgari, meu editor e a querida esposa Regina Bulgari.
Como sempre e infelizmente falávamos do Brasil, “Já podeis da Pátria...” que na distante infância fazíamos troça; “japonês da Pátria” hoje,  acabada, esquecida e enferma,  manchada de um 7 de setembro qualquer, dia que me lembro de tocar tambor e ver os cavalos enchendo de fezes as ruas, sob os gritos histéricos de uma classe média insana e eternamente  ignara,  aplaudindo áulicos, sanguinários e ditadores.
A nossa “Mãe Gentil”, pátria amada e fétida de usurpadores,  montanhas de dinheiro, de instituições falidas, de malas  e corruptos.
O álcool ainda bem, nos leva a devaneios, sonhos, misturas, sorrisos, palavras em vão, descompromissos e, principalmente, uma profunda solidariedade e cumplicidade dos amigos no altar ungido  de uma mesa.
Entre palavras e ilusões etílicas começamos a discorrer sobre a importância da mala, antigamente símbolo de despedidas e reencontros nas estações da vida.
Continuamos discorrendo sobre um assunto tão importante e decisivo nas nossas vidas diante da palavra MALA, após muitas tagarelices, levantei-me trôpego, “allegro ma no troppo”, fitei o David com seu sorriso imenso ao lado da elegância da Regina e balbuciei;
Escreva sobre a mala!”.
Hoje, ao abrir a correspondência virtual, assim estava escrito:

Suplicas de Babel, o carainho!


Liberdade, liberdade, há malas por trás de mim.

Quanto devo por ter dito que a mala seria mais importante que tudo que na vida tive.
Guardo no fundo tudo que tenho, produto das minhas conquistas  em ti e nada mais do que a mala.
Incompleto, me sinto longe de ti  e,   preocupado com as circunstâncias por tê-la e outros a exporem quando somente eu fazia de ti meu sustento, meu alento, meu deposito infinito. Cheia das virtudes que perdi na vida. A mala sempre foi para mim mais do que sustento.
Insensíveis adentraram nosso esconderijo expondo sua beleza rara que poucos podem ter.
Somente em ti poderia haver tanta riqueza, de me tirar o sono só de pensar em perdê-la.
Somente temer a mala? Como é bom amá-la!."

A poesia e a sensibilidade para entender e traduzir, transformando em sentimento os dissabores diabólicos  da realidade.
Um forte abraço ao  David e Regina.









David Ranieri, Regina e Edwaldo Arantes

A terra pertence ao homem, ou o homem pertence à terra?

Por David Ranieri


A terra prometida fez com que milhões caminhassem sem rumo pelo deserto, até que lhes fosse dito terem chegado ao seu destino, onde poderiam enfim criar raízes e ser nação.
Os gregos antigos, base da civilização ocidental, estimavam a terra de um homem pelo poder deste em defende-la e para tanto, os seus limites não poderiam ser maiores que a sua força e alcance de sua lança. Sendo a limitação de um homem a sua posse. A história humana tem forte relação com a posse da terra. Na expansão para o oeste nos Estados Unidos da América, a posse da terra dependeu da capacidade dos colonos de conquista-la, já que, como invasores adentraram território dominado por tribos indígenas dizimando-as. E assim, o sangue derramado adubou a terra dos conquistadores nas Américas, não tendo sido diferente em nosso Brasil.
A religião judaico-cristã simboliza esta dependência do homem com a terra, em gênesis, ao atribuir a sua origem ao barro moldado por Deus.
O direito à terra então é sagrado, tendo significado na cultura de todos os povos, e sua posse garantida pelo Estado, este também um detentor de terras, sendo assim reconhecido como país.
O certo é que existe esta dependência, e a sobrevivência da espécie exige os frutos da terra! Portanto, a procura dos homens por terra não poderia ser criminalizada, ou tampouco refutada como coisa menor já que encerraria a própria existência.
Ocorre que nem todos tem acesso à terra. E pior, num país de dimensões continentais como o Brasil existem milhões de pessoas sem terra! Ou seja, sobrevivendo à mercê da sorte, como párias numa sociedade que valoriza a posse.
Mas se uns nada têm, outros têm demais. Eis aí um grande problema, visto que, na defesa de grandes áreas, algumas maiores que países, os que se julgam donos usam da força desproporcional para tê-la, retirando o direito dos que por origem deveriam possuí-la e mantê-la, mas em sendo fracos as perdem pela força da bala que expropria as terras indígenas e abre fronteiras para a exploração econômica, com consequências graves no meio ambiente e no campo social, e os resultados via de regra beneficiando a poucos, enriquecendo uns e ampliando a miséria no entorno, ao favorecer a concentração de terra nas mãos dos latifundiários.
E já que o direito à terra é sagrado, assim como a obrigação de poder defendê-la, trata o Estado desigualmente estes latifundiários, justificado no poder do agronegócio, favorecendo assim os interesses econômicos em detrimento do meio ambiente e do desenvolvimento social, negando o direito à terra para milhões de famílias no campo que nutrem esperança de uma reforma agrária para conquistarem o seu pedaço de chão, e dele fazerem o ganha pão.
E este Estado que deveria proteger o direito à posse da terra, garantindo a sua função social, sucumbe aos interesses econômicos ao apoiar, em nome do desenvolvimento, o desmatamento de áreas imensas e a extinção de reservas em áreas amazônicas, prejudicando sobretudo a sustentabilidade ambiental e social. 
E tal como vilão, abandona a sua obrigação de zeloso guardião das terras do povo, entregando seus domínios ao capital estrangeiro que, somente interesse terá nas riquezas escondidas nestas terras e nada mais. Não se sabendo ao certo o legado que nos restará.
E o que te pertencia já não é teu mais, tendo sido a outros destinado e assim ferindo o direito do povo brasileiro à sobrevivência e a um futuro sustentável, com melhoria da qualidade de vida e cidadania.
E quem é este que nosso Estado representa, seria o mesmo que representa o povo de suas terras?





Literatura e Educação – uma conversa dirigida para crianças

Por Joaquim Maria Botelho

Quando a gente vem pra escola e recebe educação, a coisa mais importante que a gente recebe é a consciência da nossa identidade. Com a educação, podemos perceber quem somos de verdade. 
Por que é importante conhecer a história? 
Porque quando vocês nasceram, o mundo já existia, nossos pais já haviam trabalhado muito, o Brasil já era um país grande – o quinto maior país do mundo em extensão territorial, nosso time de futebol já havia vencido cinco Copas do Mundo, nossos três pilotos mais importantes de Fórmula 1 já tinham sido campeões de automobilismo. E a escravidão já tinha sido abolida. 
Sabem por que é importante conhecer a história?
Por exemplo, quem foi Napoleão?
Vocês devem ter visto pela televisão e pela Internet que neste ano se completam 200 anos da Batalha de Waterloo, uma luta na Bélgica que derrotou Napoleão Bonaparte. E quem foi Napoleão? Vocês sabem? 
Pois foi um general francês, baixinho, muito bravo e briguento. E que importância esse homenzinho teve para o nosso país?
Bem, mais ou menos em 1805, ele reuniu um enorme exército e resolveu que queria conquistar o mundo inteiro. Saiu conquistando muitos países na Europa. Quando estava perto de atacar Portugal, o príncipe de lá, que se chamava Dom João, ficou com muito medo, juntou a família, encheu treze caravelas com as suas coisas e sua corte e veio correndo para o Brasil. Portugal, na época era dono do Brasil. Lembram que foi Portugal que descobriu o Brasil em 1500, pelo capitão Pedro Álvares Cabral? 
O Brasil era um país grande e selvagem, e pouca gente morava aqui. O príncipe Dom João é que mandava em Portugal e no Brasil, porque a rainha, mãe dele, estava pirada e não conseguia tomar decisão alguma. 
Dom João chegou ao Brasil, no ano de 1808, com mais ou menos duas mil pessoas e foi morar no Rio de Janeiro, e por isso o Rio se transformou na nossa primeira capital. 
Como era um homem inteligente, Dom João criou uma biblioteca para que as pessoas pudessem consultar livros e assim aprenderem sempre mais. Foi a Biblioteca Nacional, que ainda existe e é muito importante. Logo depois criou a Imprensa Oficial do Estado, para que o Brasil pudesse imprimir livros, jornais, e documentos importantes como leis e decretos. Também criou os Correios, para que as pessoas pudessem mandar e receber correspondências e assim ter notícias de suas famílias que ficaram em Portugal. Dom João criou também o Banco do Brasil. E também criou a Casa da Moeda, para produzir o dinheiro que o brasileiro passou a usar, e que naquela época já se chamava real. Viram que príncipe inteligente? Foi por causa dele que o Brasil, que era um país grande e selvagem, começou a se modernizar. 
O Brasil ficou tão moderno que surgiram até escritores. 
Um desses escritores era um homem muito interessante. Ele se chamava Joaquim Maria, como eu. Mas ele ficou conhecido pelo sobrenome, que era Machado de Assis. 
Mas o Brasil, nessa época, ainda tinha um problema. Um problema muito sério: ainda havia a escravidão. Tribos de negros eram trazidos da África, principalmente de Angola, para trabalhar de graça para os donos de terras aqui no Brasil. E sofriam muito, porque apanhavam se não trabalhassem direito, ganhavam pouca comida. Aliás, quando os fazendeiros matavam um boi e um porco para fazer churrasco, os negros não podiam participar. Então, o que eles faziam? Pegavam o que sobrava do boi e do porco e que não servia para fazer churrasco, isto é, o fígado, os rins, os pés, as orelhas, cozinhavam tudo com feijão e assim nasceu a feijoada...
Mas, aos poucos, os negros foram conseguindo se libertar, alguns lutando, outros fugindo e se escondendo no mato, onde criavam acampamentos que se chamavam quilombos. Mas muitos negros foram libertados pelos próprios patrões, que ficavam com pena do sofrimento deles e que tinham consciência do respeito que a gente deve ter com as pessoas. Aprenderam a respeitar os outros porque receberam educação na escola. E é esse o papel mais importante da escola, sabiam disso? Ensinar que todo mundo deve ser respeitado, mesmo sendo diferentes.
Pois eu estava contando sobre Machado de Assis. 
Ele era negro, e não era escravo porque a mãe dele tinha sido libertada pelo patrão dela. Mas era pobre. A mão era lavadeira e ele ajudava nas despesas da casa vendendo cocada na rua. Machado de Assis também era gago e, por ter vergonha disso, era muito tímido. Mas era muito inteligente e muito determinado. Morava no Rio de Janeiro e ia todos os dias até a Biblioteca Nacional e lia muito livros. E não perdia um só dia de aula. Foi aprendendo tanto que em pouco tempo sabia muito bem a língua portuguesa e também o francês. Conseguiu emprego de ajudante numa gráfica e não demorou muito para que o chefe dele percebesse que ele sabia escrever muito bem. E deu a ele a chance de escrever para o jornal. Começou a fazer poesias, depois começou a escrever crônicas. As pessoas gostavam muito do que ele escrevia e ele começou a ficar famoso. 
Acontece que ainda havia poucas escolas no Brasil. Por isso, havia muita gente analfabeta. Então, o costume da época era este: logo depois do jantar, a família se reunia na sala e aquela pessoa da casa que sabia lera pegava o jornal e lia em voz alta para todo mundo. Não era um costume bacana?
Foi desse jeito que Machado de Assis ficou conhecido no Brasil inteiro. Porque todo mundo conhecia o que ele escrevia. 
E o que ele escrevia? Histórias sobre os sentimentos das pessoas. Falava de amor, de tristezas, de sonhos e de esperanças. Ele sabia escrever sobre tudo o que as pessoas sentiam no coração. E por isso ele fez muito sucesso. Porque todo mundo sente as mesmas coisas, mesmo que sejam diferentes. Os ricos amam seus pais; os pobres também. Os mais velhos sentem raiva, às vezes; os mais jovens também. Todo mundo trabalha. Todo mundo quer se divertir. Todo mundo fica doente de vez em quando. E todo mundo morre, porque morrer faz parte da vida. Quer dizer: Machado de Assis falava de sentimentos e de acontecimentos que existem para todas as pessoas, não importando se são jovens, velhas, ricas, pobres, brancas, negras. 
Machado de Assis até se esquecia de que era negro, porque a cor da pele não tinha importância para ele. Aliás, a cor da pele não deve ter importância para ninguém. Só para os tolos.
E o que é ser negro?
Do ponto de vista da humanidade, não quer dizer absolutamente nada. Nós todos somos pessoas, diversas, diferentes, viventes, dotadas das mesmas qualidades e, por que não?, dos mesmos defeitos. 
Do ponto de vista da história, os negros carregam uma carga cultural específica, por causa da escravidão que sofreram. Chegaram ao Brasil trazidos à força, com um passado diferente, outros costumes, outros desafios. Tiveram que trabalhar demais, sem liberdade. Por isso a história dos negros é diferente, mas na essência são pessoas como todas as outras, com os mesmos sonhos e ideais. Simples assim.
Pois Machado de Assis foi negro. E o maior escritor da língua brasileira. 
Foi tão importante que o imperador Dom Pedro II contratou os serviços dele para escrever mais sobre o Brasil. É que o Brasil tinha ficado independente de Portugal, mas não bastava isso. O Brasil precisava ficar independente também na literatura, e escrever a sua própria história, em vez de apenas ter livros feitos pelos portugueses. Que rei sábio, hein? Deu apoio aos escritores brasileiros. 
Mas havia outros escritores que se preocupavam com a situação dos negros que continuavam escravos. 
Um deles se chamava Luiz Gama. Também era negro. Nasceu em 1830, nove anos antes de Machado de Assis. Nasceu na Bahia. Era filho de um fidalgo português e de Luiza Mahin, negra livre que participou de diversas insurreições de escravos. Teve uma vida boa até os dez anos de idade. Brincava, nadava na praia, não tinha preocupações. Mas não ia para a escola, porque na Bahia ainda não havia escola para todo mundo.
Mas sua história de vida foi bem diferente. Enquanto Machado de Assis teve a sorte de ser criado por uma família pobre, mas livre e que tinha grande apreço pela educação, Luiz Gama, aos 10 anos de idade, foi vendido como escravo pelo pai para pagar uma dívida de jogo. Foi comprado pelo alferes Antônio Pereira Cardoso (alferes era como eram chamados, na época, os tenentes do exército). Luiz Gama foi levado para Rio de Janeiro, e depois para diversas cidades de São Paulo, até ser levado ao município de Lorena, onde o dono dele tinha uma fazenda de café.
Trabalhava muito, plantando, colhendo, limpando mato. Quando tinha dezessete anos, um estudante ficou hospedado na fazenda. Vendo a inteligência de Luiz Gama, resolveu ensinar o moço a ler e a escrever. Um ano depois, Luiz Gama fugiu para São Paulo e alistou-se na Força Pública da Província de São Paulo. Chegou a ter a patente de cabo e permaneceu até o ano de 1854 quando foi obrigado a dar baixa por responder ao insulto de um oficial.
Em 1850 casou-se e tentou frequentar o Curso de Direito do Largo do São Francisco. Por ser negro, enfrentou a hostilidade de professores e alunos, mas persistiu como ouvinte das aulas. Não concluiu o curso, mas o conhecimento adquirido permitiu que atuasse na defesa jurídica de negros escravos.
Na década de 1860 destacou-se como jornalista e colaborador de diversos jornais. Escrevia poemas ridicularizando os poderosos de seu tempo. Hoje, é reconhecido como um dos grandes poetas do romantismo brasileiro.
Luiz Gama foi um dos maiores líderes abolicionistas do Brasil. Sempre esteve envolvido nos movimentos contra a escravidão e a favor da liberdade dos negros. Em 1869, fundou com Rui Barbosa o Jornal Radical Paulistano. Em 1880 foi líder da Mocidade Abolicionista e Republicana.
Um dia, escreveu isto:
Nos Tribunais, como falava muito bem e conhecia as leis, conseguiu libertar mais de 500 escravos. Nessa época, um dos preconceitos racistas mais difundidos dizia (como ainda hoje diz) respeito ao suposto odor que proviria dos negros. Por isso, no Brasil do século XIX, uma das gracinhas mais comuns era chamar os negros de “bodes”.
Vamos ver alguns pequenos trechos do seu poema “Quem sou eu?” (também conhecido como “Bodarrada”)

Quem sou eu? que importa quem?
Sou um trovador proscrito,
Que trago na fronte escrito
Esta palavra — Ninguém! —
Amo o pobre, deixo o rico,
Vivo como o Tico-tico;
Não me envolvo em torvelinho,
Vivo só no meu cantinho:
Da grandeza sempre longe,
Como vive o pobre monge.
Tenho mui poucos amigos,
Porém bons, que são antigos,
Fujo sempre à hipocrisia, 
À sandice, à fidalguia;
Das manadas de Barões.
Mas eu sempre vigiando 
Nessa súcia vou malhando 
De tratantes, bem ou mal 
Com semblante festival. 
Dou de rijo no pedante 
De pílulas fabricante,
Que blasona arte divina,
Com sulfatos de quinina,
Trabusanas, xaropadas,
E mil outras patacoadas,
Que, sem pingo de rubor,
Diz a todos, que é DOUTOR!
Não tolero o magistrado,
Que do brio descuidado,
Vende a lei, trai a justiça
— Faz a todos injustiça —
Com rigor deprime o pobre
Presta abrigo ao rico, ao nobre,
E só acha horrendo crime
No mendigo, que deprime.
- Neste dou com dupla força,
Té que a manha perca ou torça.
Fujo às léguas do lojista,
Do beato e do sacrista 
Crocodilos disfarçados,
Que se fazem muito honrados,
Mas que, tendo ocasião,
Mais ferozes que o Leão. 
O que sou, e como penso,
Aqui vai com todo o senso,
Posto que já veja irados
Muitos lorpas enfunados,
Vomitando maldições,
Contra as minhas reflexões.
Eu bem sei que sou qual grilo
De maçante e mau estilo;
E que os homens poderosos
Desta arenga receosos
Hão de chamar-me — tarelo,
Bode, negro, Mongibelo;
Porém eu que não me abalo,
Vou tangendo o meu badalo
Com repique impertinente,
Pondo a trote muita gente.
Se negro sou, ou sou bode
Pouco importa. O que isto pode?
Bodes há de toda a casta,
Pois que a espécie é muito vasta.
Há cinzentos, há rajados,
Baios, pampas e malhados,
Bodes negros, bodes brancos,
E, sejamos todos francos,
Uns plebeus, e outros nobres,
Bodes ricos, bodes pobres,
Bodes sábios, importantes,
E também alguns tratantes
Aqui, nesta boa terra
Marram todos, tudo berra;
Nobres Condes e Duquesas,
Ricas Damas e Marquesas,
Deputados, senadores,
Gentis-homens, veadores;
Belas Damas emproadas,
De nobreza empatufadas;
Repimpados principotes,
Orgulhosos fidalgotes,
Frades, Bispos, Cardeais,
Fanfarrões imperiais,
Gentes pobres, nobres gentes
Em todos há meus parentes.
Entre a brava militança
Fulge e brilha alta bodança;
Guardas, Cabos, Furriéis,
Brigadeiros, Coronéis,
Destemidos Marechais,
Rutilantes Generais,
Capitães-de-mar-e-guerra,
— Tudo marra, tudo berra —
Na suprema eternidade,
Onde habita a Divindade,
Bodes há santificados,
Que por nós são adorados.
Entre o coro dos Anjinhos
Também há muitos bodinhos.
O amante de Siringa
Tinha pêlo e má catinga;
O deus Midas, pelas contas,
Na cabeça tinha pontas;
Zeus quando foi menino,
Chupitou leite caprino;
E, segundo o antigo mito,
Também Fauno foi cabrito.
Nos domínios de Plutão,
Guarda um bode o Alcorão;
Nos lundus e nas modinhas
São cantadas as bodinhas:
Pois se todos têm rabicho,
Para que tanto capricho?
Haja paz, haja alegria,
Folgue e brinque a bodaria;
Cesse pois a matinada,
Porque tudo é bodarrada!

Luiz Gama faleceu em 24 de agosto de 1882 e foi sepultado no Cemitério da Consolação, na presença de 3.000 pessoas numa São Paulo de 40.000 habitantes.
Apenas para tratar das aproximações que existem entre as literaturas de Machado de Assis e de Luiz Gama, devo dizer que a literatura PODE ser engajada, mas não precisa ser engajada.
A literatura deve ser livre, como o homem deve ser livre.
Machado de Assis falou dos grandes dramas da psicologia humana. Luiz Gama falou dos grandes dramas da sociologia humana. Mas ambos trataram da liberdade.
Pois é isso. Cada um produziu a literatura que preferiu, que escolheu. Cada um atendeu a um chamado diferente.
Cada um com o seu pendor, cada um com o seu valor, e ambos com o mesmo amor.


 





Joaquim Maria Botelho, Jornalista, Professor,Escritor, Mestre em Literatura e Crítica Literária. - Foi Presidente da UBE - União Brasileira de Escritores entre 2010 e 2015.

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