"OS NUS E OS MORTOS"


Por Edwaldo Arantes  eeaaaarantes@gmail.com


Talvez a tênue linha que separa a ficção da realidade, a vida da morte, o justo do injusto, o bem do mal, seja mais perceptível e presente  em nosso graves e descrentes dias.

Pensando sobre a luta eterna e o confronto  das palavras,  acordei sem saber se era lucidez ou devaneio, pois me vi transportado aos bancos escolares e vi com perfeição as silhuetas de mestres como Sérgio Roxo, Willian Vanderlei Jorge,  Seixas Santos, José Bíscaro, Valentin Carrion e tantos outros monstros sagrados do Direito e da Academia.

Naqueles tempos aprendemos com orgulho e o peito cheio e vivíamos a declamar quase em  em coro diversas teses, artigos, jurisprudências, súmulas e todas a literaturas que não brotavam  do Google, Site ou Blogs, emergiam das palavras nos livros, com seu cheiro delicioso do papel e seu farfalhar das folhas ao serem viradas sob o brilhar dos olhos.

Hoje, assustado, vejo que já existem petições prontas, apenas cabendo ao dito cujo, preencher a Qualificação Civil, um bruto absurdo, petições brotavam das  Remingtons e Olivettis, ao som  gostoso dos batuques nas teclas.

Os tempos são outros, com respeito,  acato e aprecio:
As pessoas tem medo de mudar, pelo contrário, tenho medo que as coisas não mudem". Agora, petições já prontas, soa  bizarro e decadente.

Dias atrás recebi uma propaganda nas redes sociais de uma editora,  "Mil e quinhentas  , petições para todas as áreas", listando: previdenciárias, cíveis, criminais, tributárias, trabalhistas e tudo o mais, inclusive com as devidas e competentes  jurisprudências. Um verdadeiro atentado à pesquisa, conhecimento e o saber jurídico.

Voltando aos tais ditos, me vem a memória as vozes deles, com meus parcos 16 anos, "capiau", chegando de Minas, onde uma cidade lembrava um imenso turbilhão. Nunca havia visto alguém  levantar a cabeça,  olhar para um estranho aparelho pendurado em um poste de  ferro, esperando perplexo e catatônico  uma cor para atravessar a rua ou para se deter. Nunca entendi uma das três cores, que passava muito rápida e diziam significar atenção.

Assim aprendemos:
"Todos são iguais perante a Lei, o ônus da prova é de quem acusa, As provas precisam ser robustas e incontestáveis, direito ao contraditório, presunção da inocência, In dubio pro reo, todo poder emana do povo e em seu nome é exercido, ninguém, será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante,  são garantidos os direitos à vida, à liberdade, à igualdade, à moradia e à segurança, todo cidadão é livre, e pode recorrer à justiça, quando necessário for,  sem ser oprimido, são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, a lei não prejudicará o direito adquirido, o ato jurídico perfeito e a coisa julgada,  a lei punirá qualquer discriminação atentatória dos direitos e liberdades fundamentais" e tantos outros que me  enchem de saudades, apertam o peito  e marejam os olhos.

Hoje, chegando na casa dos quase e imediatos "sessenta", observo com tristeza, melancolia, repugnância, torpor, desprezo e um lampejo de  ódio que rasgaram a Carta Magna.
Com  humildade vaticino e indago?
Que importância podem ter hoje o CP, CPP, CC, CPC, CLT e outras hoje, bobagens amenas, em absoluto desuso e  ao sabor das traças.

Penso que é possível encerrar todos os cursos de ciências jurídicas pelo país, não possuem quaisquer serventias e utilidades, me lembrei imediatamente do João Cabral de Melo Neto,  in Morte e vida severina; "e aquele cemitério ali, branco na verde colina, decerto pouco funciona e poucas covas aninha".
Tenho pena das  legendárias "Arcadas de São Francisco", chama viva da luta pela liberdade, a busca incansável do justo e do bem comum.
As Arcadas hoje, são apenas uma lápide.

AQUI JAZ!


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