Os ventos de agosto

Por David Ranieri

Naqueles dias olhava o céu pontilhado de pipas, arraias e papagaios de todos as cores e tamanhos.
Eram dias tranquilos para um menino de 10 anos, que pouco entendia do seu país. Apenas importavam as brincadeiras e folguedos, nos dias que antecediam o final das férias. 
E o vento soprava forte, era agosto, e além de cachorro louco tínhamos medo do sarampo, caxumba e catapora, e de inúmeras doenças que acometiam a todos.
E o país seguia sua sina, mesmo que milhões de brasileiros discordassem do governo poucos ousavam dizer, e a maioria calada assistia a tudo.
Mas assim como os ventos de agosto se foram, um dia o raiar do sol trouxe esperança ao povo de dias melhores, pois finalmente, a ditadura cedeu e um presidente civil fora eleito.
Passados 29 anos os ventos de agosto parecem trazer mais que memórias esquecidas. Lembranças de um tempo que se quis esquecer mas, que volta a incomodar.

Quantos calaram e assistiram passivamente os crimes dos poderosos?
Quantos de nós dirão que o Brasil mudou e não aceitaremos mais perder o que com luta foi conquistado?

Quantos de nós na esperança de dias melhores procuraram no céu uma pipa colorida?
Quantos de nós, afinal, diremos basta para toda esta bandalheira que mais uma vez tomou o governo e as rédeas do destino de milhões?
Somos milhões! Pense, mudar é possível.

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